quarta-feira, 21 de abril de 2010

Última Entrevista: Respostas Imaginárias

Uma coisa boa sobre a música

é que quando ela bate

você não sente dor.

Bob Marley

Para Tony Django

Eu sei que nunca se vai parar a música,

mas acredite que ela não será mais a mesma.


Mano, esta é uma carta de memórias. Também é o que se pode fazer quando se dedica a uma estrela que temos de aprender a ver o seu brilho através do coração porque sabemos que ela “não brilhará mais aqui.”

Acho que nunca te disse, mas sempre me recordaste Peter Pan. Me prendia sempre a assistir esse personagem que o seu maior, senão único, medo era ser adulto. Queria prender se na eterna infantilidade e se deliciar com as histórias da Wendy porque “acreditava em fadas”.

Será que acreditavas em fadas Tony? Me esqueci de te perguntar isso na única entrevista que me concedeste. Foi só uma entrevista não por tua culpa, mas porque sempre tenho dificuldades de entrevistar os meus amigos. Fica-me sempre aquela sensação de que de todas as perguntas que vou fazer, tenho as respostas.

Agora sei que é presunção. Sei que muitas perguntas ficaram por te fazer. “Acreditavas em fadas?”

Nunca te perguntei isso, como também não te perguntei se serias capaz de fazer outra coisa senão cantar? Se podias ser uma outra pessoa que não Tony Django? Agora sei que não te conhecia.

Olhava para ti e me recordavas Peter Pan.

Sempre me fascinei com a sua fragilidade infantil de um personagem que amava como adulto e estava preparado para lutar e demonstrar seu poder perante capitão Gancho.

Tinhas esses traços frágeis de adolescentes e te soltavas em sonhos na poderosa música de adultos. “Uta Bala ka Mani” é onde aparece a tua potência como se o seu corpo franzino ganhasse massa e exigisse que olhassem para ti como adulto.

Katchume era o exemplo de música que se podia fazer nessa altura. Rompiam com os estrangeirismos que dominavam a juventude e corriam para as raízes sem deixarem de introduzir conceito world típico das grandes bandas africanas.

Depois do sucesso do Ghorwane, precisavamos de uma renovassão que nos ajudasse a compreender o verdadeiro valor dos bons rapazes. E Kapa Dêch deu uma resposta a altura e nós percebemos o quanto este país estava a precisar de equilíbrio em termos de música.

Se lesses esta carta mano, sei que saberias que não estou a fazer nenhuma comparação pois são dois grupos completamente diferentes. Não falo apenas nas suas estruturas como também em estilo de música. Estou simplesmente a dizer que vieram mostrar que há muitos caminhos pelos quais se seguir.

Penso que isso é o que falta nestes dias.

Me esforço agora que te escrevo, a ouvir Dorropa. Me esforço porque é arrepiante lembrar que cada música em que aparece a tua voz é exactamente a última música em que emprestas o teu encanto de “fadas”.

Dorropa me fascina. É como se, pela tua voz me oferecesse a imagem de uma cidade que está a ser vendida aos bocados e se enche de sugidade. É retrato de um país degradado.

Olha mano, também não te perguntei sobre este país. O que achavas deste país? Acho que – estou a ser novamente presunçoso – dirias “haaa deixa lá disso vamos lá ali....”

Então nos meteriamos pela rua da Resistência irias querer falar da música que era o que corria em ti. Insistirias em me contar, acho que pela oitava vez, o sonho de construireres uma casa primeiro andar onde embaixo funcionaria um estúdio ou um centro cultural.

“Querias viver com música em casa?”

Acho que diria – “obviamente, eu sou a música”.

Eu sei mano que a música não vai deixar de existir. Iremos a Malhangalene beber um copo. Vamos cantar no Gil Vicente e dançar no África.. A música vai continuar, mas não será a mesma coisa.

Não haverá Dorropa com tua voz, não vamos ouvir “Mamane” e o seu apelo a iguladade “hi tlanlane magoda hita ringanana – penso que é assim que se escreve – tirem-nos as amarras para estarmos ao mesmo nível - não se fará mais tributo sem teu nome, não haverá mais Tony Django na última correografia do espectáculo do K-10!

NI TA BALA KA MANI!Mano, esta é uma carta de memórias. Também é o que se pode fazer quando se dedica a uma estrela que temos de aprender a ver o seu brilho através do coração porque sabemos que ela “não brilhará mais aqui.”

Acho que nunca te disse, mas sempre me recordaste Peter Pan. Me prendia sempre a assistir esse personagem que o seu maior, senão único, medo era ser adulto. Queria prender se na eterna infantilidade e se deliciar com as histórias da Wendy porque “acreditava em fadas”.

Será que acreditavas em fadas Tony? Me esqueci de te perguntar isso na única entrevista que me concedeste. Foi só uma entrevista não por tua culpa, mas porque sempre tenho dificuldades de entrevistar os meus amigos. Fica-me sempre aquela sensação de que de todas as perguntas que vou fazer, tenho as respostas.

Agora sei que é presunção. Sei que muitas perguntas ficaram por te fazer. “Acreditavas em fadas?”

Nunca te perguntei isso, como também não te perguntei se serias capaz de fazer outra coisa senão cantar? Se podias ser uma outra pessoa que não Tony Django? Agora sei que não te conhecia.

Olhava para ti e me recordavas Peter Pan.

Sempre me fascinei com a sua fragilidade infantil de um personagem que amava como adulto e estava preparado para lutar e demonstrar seu poder perante capitão Gancho.

Tinhas esses traços frágeis de adolescentes e te soltavas em sonhos na poderosa música de adultos. “Uta Bala ka Mani” é onde aparece a tua potência como se o seu corpo franzino ganhasse massa e exigisse que olhassem para ti como adulto.

Katchume era o exemplo de música que se podia fazer nessa altura. Rompiam com os estrangeirismos que dominavam a juventude e corriam para as raízes sem deixarem de introduzir conceito world típico das grandes bandas africanas.

Depois do sucesso do Ghorwane, precisavamos de uma renovassão que nos ajudasse a compreender o verdadeiro valor dos bons rapazes. E Kapa Dêch deu uma resposta a altura e nós percebemos o quanto este país estava a precisar de equilíbrio em termos de música.

Se lesses esta carta mano, sei que saberias que não estou a fazer nenhuma comparação pois são dois grupos completamente diferentes. Não falo apenas nas suas estruturas como também em estilo de música. Estou simplesmente a dizer que vieram mostrar que há muitos caminhos pelos quais se seguir.

Penso que isso é o que falta nestes dias.

Me esforço agora que te escrevo, a ouvir Dorropa. Me esforço porque é arrepiante lembrar que cada música em que aparece a tua voz é exactamente a última música em que emprestas o teu encanto de “fadas”.

Dorropa me fascina. É como se, pela tua voz me oferecesse a imagem de uma cidade que está a ser vendida aos bocados e se enche de sugidade. É retrato de um país degradado.

Olha mano, também não te perguntei sobre este país. O que achavas deste país? Acho que – estou a ser novamente presunçoso – dirias “haaa deixa lá disso vamos lá ali....”

Então nos meteriamos pela rua da Resistência irias querer falar da música que era o que corria em ti. Insistirias em me contar, acho que pela oitava vez, o sonho de construireres uma casa primeiro andar onde embaixo funcionaria um estúdio ou um centro cultural.

“Querias viver com música em casa?”

Acho que diria – “obviamente, eu sou a música”.

Eu sei mano que a música não vai deixar de existir. Iremos a Malhangalene beber um copo. Vamos cantar no Gil Vicente e dançar no África.. A música vai continuar, mas não será a mesma coisa.

Não haverá Dorropa com tua voz, não vamos ouvir “Mamane” e o seu apelo a iguladade “hi tlanlane magoda hita ringanana – penso que é assim que se escreve – tirem-nos as amarras para estarmos ao mesmo nível - não se fará mais tributo sem teu nome, não haverá mais Tony Django na última correografia do espectáculo do K-10!

NI TA BALA KA MANI!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dos Bifes A Ditadura Da Media

"Se você não tem motivos para sorrir,

pelo menos não dê motivos

para os outros chorarem."

Anónimo


Matola, 14 de Abril

Uma canção para Seth Swaze

Pelo seu aniversário e

pelas músicas que nunca gravou

Mano, uma vez descansava o triste peso de um dia em que corremos atras do que não sabemos só para nos iludirmos que fazemos alguma coisa. De remoto na mão fui repetindo essa inaptidão a procura, nas nossas TV’s, de qualquer coisa que pudesse assistir. Sabes Seth, há horas que nos apetece partir o televisor por não nos estar a servir para nada. Mas esse dia fui me prender na 21ª hora, e Fernando Lima sugeria para ler “A Ditadura da Media”.

Me admira o poder disciplinador da media do mesmo jeito que me assusta a forma de interferir nas nossas vidas. Uma espécie de invasores impiedosos que se dão ao luxo de determinarem o que temos de fazer, onde devemos comprar e o quê comprar. Pior, a quem amar!

A media venceu. A Televisão tomou de assalto o papel previligiado dos pais e passou a ser o educador destes e dos seus filhos. Já te apercebeste do silencio que os pai impõe ao filho na hora do telejornal e aquele que a mãe sujeita quando passa uma telenovela?

Te dizia mano que a media venceu e determina onde comprar as coisas. Rui Michel foi a última vítima dos bifes por ter feito compras no Xipamanine. Va ka hina, por se ser músico não se pode fazer compras no Xipamanine?

O que mais intriga é concentração das pessoas para ver “daqui a pouco”essa grande matéria. E ainda me vem dizer que o tempo de antena na TV é caro. Façam-me rir.

Mas te queria falar de música mano.

Parti dos breves minutos da tua música ontem para recuar no tempo em que com Zé Manuel – onde anda esse companheiro? – fizeram uma parelha e percorreram um jazz todo gospelizado cheio de marrabenta que alertava “deixem os pintos crescerem”. Queria voltar para o poder da música que a media não encontra motivos para a expor nos seus canais (falo das TVs) porque o tempo da antena é caro.

Voltei aos spirituals que não eram exactamente das noites revolucionárias da capoeira ou do hip-hop das ruas novaiorquinas importados dos ritmos da jamaica.

Eram música de lamento e crença no poder divino para o descanso espiritual, pelo peso de tanto trabalho nas plantações de canas-de açucar. Será daí que evoluiu a tua música Seth?

Essa minha leitura pode ser influenciada pela tua ligação com a religião onde parece ser a base para a grande música. Podia correr para os coros que inspiraram os Boyz II Man, mas posso me prender – gosto desta – na Irinah ou mesmo na Lizha James dos tempos iniciais da sua carreira em que a voz era o seu principal instrumento de sedução. Lembras?

Alguns dos teus ídulos também não se escapam dessa influência religiosa, falo por exemplo de Arão Litsuri. A tua música me levou de volta a esse passado para compreender a evolução de algumas das nossas histórias.

Na sexta-feira fazes 34 anos e vais cantar para os teus amigos no Mbuva. Espero esse regresso, e acredito que na tua marrabenta, afrojazz e gospel teremos uma forma de fazer uma viagem pela world music, do nosso jeito.

E espero que depois trabalhes para produzires um disco e que ganhes mais indo ao palco que indo ao tribunal como advogado.

Hã... cuidado, se fores as compras ou se fores dar umas voltas pelas avenidas onde as mulheres estão dispostas a te amarem por uns minutos a troco de alguns valores podes ser o proximo bife.

Aquele abraço

PC


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Uma Noite com Maria Teresa Dzukuta

A maior covardia de um homem

é despertar o amor de uma mulher

sem ter a intenção de amá-la.

Bob Marley

Matola, 17 de Fevereiro de 2010

Querida amada,

O 14 de Fevereiro me deprime!

Me pedes a verdade como se eu a te pudesse dizer.

Podia deixar as horas correrem, te falar do pânico que se reinstala sempre que os telejornais recuperam as notícias de polícias assassinados. Não importam as causas, diria a minha mãe com o rosto espantado e as mãos na cabeça como se a temer pela sua própria segurança: “se matam polícias o que será de nós?”

Mas não é isso que te preocupa.

O Estado pode ser assassinado isso não te diz nada. Me olhas como se fosse eu culpado pela morte de Michael Jackson e me acusas de ter assassinado o teu estado emocional. Me perguntas sem nenhuma compaixão pelo desgaste físico e financeiro que passei na noite de 14 de Fevereiro. A tua única preocupação é saber onde estava, com quem a fazer o quê e como!

Sinto egoísmo da sua parte. É como se eu fosse tua propriedade privada, teu homem de estimação que as outras não podem tocar nem por um segundo.

Me desgosta o teu interrogatório. Não porque não o podes fazer, mas porque não te posso responder.

Te digo que fui aos copos com os meus novos amigos de infância e nos perdemos no tempo falando daquilo que podia ter sido a nossa história se tivéssemos nascido e crescido no mesmo bairro.

Me olhas com o mesmo desprezo de uma serpente desesperada. “Onde estiveste?”

Não te posso dizer! Como dizer?

Uso a arma dos fracos para poder me defender dos teus ataques fulminantes. Grito e exponho minha força física para me acobardar, e te lembro que estou cansado!

Me perdi na noite deste 14 de Fevereiro num bar da esquina onde Maria Teresa Dzukuta ao ritmo de cada copo de cerveja, pisca o olho para quem paga mais como nos concursos das operadoras celulares, nos quais que ganha quem mais mensagens enviar.

Lá, como diria Manuel Bandeira, mesmo não sendo Pasárgada, há muitas prostitutas bonitas para namorar. Deixam-se aos montes e fazem a mesma promoção de tomate no mercado. Prometem bassela e noite inesquecível.

Olha meu amor. Consegues imaginar como ficam os lábios prostitutos de Maria Teresa quando te promete uma noite inesquecível?

Me perdi nessa sensualidade selvagem e as minhas mãos soltaram-se para deslizarem nos meus bolsos e tirarem as notas enquanto gritavam em voz alta para todos me ouvirem dizer para Paito, servente do bar, “fique com os trocos”!

Maria Teresa dzukutava para mim, mesmo quando aparecia por engano uma música de Aretha-Franklin. É como se a sua existência existisse apenas de cintura para baixo. E é por ai onde também me fixava.

É verdade amor, fugi dos jantares a dois a luz de vela numa mesa onde o som chega de fininho, como se estivéssemos nos tempos em que devíamos ter medo que alguém se apercebesse que ouvíamos músicas revolucionárias.

Dizes que é romântico?

Romântico?!

É tedioso meu amor!

Por isso que os 14 de Fevereiro me deprimem.

Lá na Maria Teresa falamos em voz alta e soltamos palavrões sem nenhuma preocupação em sermos educados. Dançamos sem nos preocuparmos em acertar o passo, bebemos sem nos preocuparmos com a quantidade, fazemos amor sem nos preocuparmos com preliminares.

Somos nós mesmos, percebes meu amor?

Mas como te dizer isso?!

Me deixe ver telejornal.

Dois polícias são assassinados. Clic!

Bairros da Matola estão há meses sem água. Clic!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Esquecer Matola, ouvir T’Yana para Lembrar Samora e olhar Guebuza

Um homem que quer reger a orquestra

precisa dar as costas à plateia.

James Cook


Para Jorge Saiete, Lazaro Bamo

e o recém admitido ao

triste clube matolense

Júlio Mutisse


Desliguei-me da Matola que tanto amo.

Os jornais repetem as notícias do lixo e os residentes de Fomento saem a rua para reclamar a falta de limpeza “enquanto pagamos taxa de lixo”. O presidente do Município espreita para a capital e nos apazigua “se até Maputo tem lixo”. Clic!

Comemoravam-se 38 anos de Matola como cidade. Nessa noite as estrelas foram ofuscadas pelo fogo de artifício.

Viva Matola!

Esqueço Matola e seu lixo, sua falta de água, promessas não cumpridas de estradas e eternos seminários sobre plano de estrutura urbana!

Viva Matola!

Mas me esqueci da Matola, da revolta populacional e comentadores das TV’s que põem em causa a competência do seu presidente que sempre acreditou na “Matola Primeiro.” Clic!

Me esqueci!

Me tranquei no quarto e recuperei um disco de T’Yana exumado do baú das memórias para fazer um back ao passado de um povo que levantava o nariz e dizia aos governos racistas de Ian Smith e Pieter Botha que “somos pobres com orgulho”.

T’Yana nos leva de volta a um país que era liderado por um homem de causas, que preferiu trancar as suas fronteiras e punha o povo a cantar “Smith wa lhanya” algo como “Smith é louco”.

Eram os tempos que brincávamos djiplokotsos a Kapango na Escola Primária de T-3 e festejamos a distribuição de leite em pó nos intervalos depois de longas filas para vacinação. Nessa altura, na curiosidade de ver o Presidente nos juntamos nas machambas 16 de Junho pertencente a Cooperativa das Zonas Verdes para o ouvirmos gritar “Independência ou Morte, Venceremos!”

É neste contexto que aprece T’Yana inspirado no discurso de Samora Machel depois do comando boer, no dia 30 de Janeiro de 1981, ter invadido Moçambique para assassinar militantes do ANC.

O tom de desafio de Samora Machel e interpretação perfeita de Yana, é a demonstração de segurança de um país acabado de sair de uma luta pela independência frente a um exercito colonial violento, que não aceita dobrar-se perante uma potencia regional que era a África do Sul do Apartheid.

Que venham, estamos prontos para os receber com uma sandes de marreta, um copo de creolina, um rebuçado de pregos, um bolo de granada e para fazer digestão um coro de armas viradas para eles.

Esta é a forma como um país de terceiro mundo, considerado na altura, muito mais do que hoje, mais pobre do mundo.

Mais do que as consequências que o país passaria ou que passou, se olharmos para toda a sabotagem que o país viveu, o mais importante era passar para os nossos inimigos a mensagem de um país que não verga, um país que poeticamente se definiria “pobre mas orgulhoso”!

Hoje podemos encontrar o mesmo discurso em Armando Guebuza. É claro que já não se coloca o verso de “pobre orgulhoso” mas o de auto estima.

Os inimigos de hoje são outros, como o definiu Marcelino dos Santos num seminário organizado pela Coopal_ Jornalistas Culturais, onde Armando Guebuza era o principal orador, antes da sua eleição para o primeiro mandato.

Os inimigos são outros, dizia o libertador. Armando Guebuza olha para a pobreza absoluta que se pode vencer com trabalho e auto estima. Para Graça Machel, na abertura do ano lectivo d’A Politécnica, é importante que o moçambicano em qualquer parte do mundo se sinta moçambicano mas parte deste mundo.

Mas voltamos ao discurso combativo de Samora em Yana. Se Graça Machel hoje fala desse orgulho de ser moçambicano, podemos recuar para “Daqui Não Saio Daqui Ninguém Me Tira”.

Eu aqui nasci e é aqui que vou morrer.

Se alguém vier para me tirar eu não vou sai.

Nunca deixarei que alguém me roube esta terra.

Venha de onde vier, Independência ou Morte daqui não saio.

Mais uma vez encontra-se aqui no verso de T’Yana o tom desafiador samoriano. A ideia de terra que nos vê nascer e que suporta os nossos mortos. O discurso é típico do momento em que o país vivia e o Marechal precisava fazer acreditar ao seu povo que a defesa da pátria valia todo o nosso sangue. Foi assim que se ganhou a “liberdade” e é por amor a terra que hoje podemos nos entregar, diria Guebuza, no combate a corrupção e renovação de liberdades individuais se quisermos realmente combater a pobreza.

Podemos falar de unidade em as tuas dores mas as minhas dores vão estrangular a opressão. Penso que esta é das músicas mais significativas do professor Yana. A ideia da unidade para se atingir um bem comum. No entanto a unidade não pode significar todos nós estarmos a fazer a mesma coisa. É estarmos a contribuir a nossa maneira para um mesmo fim. Guebuza recupera essa ideia de unidade primeiro com indicação de 2009 como ano Eduardo Mondlane e depois no discurso da sua investidura onde fala de uma colaboração entre a geração 25 de Junho, a geração 8 de Março e a geração de Viragem.

Os teus olhos mais os meus olhos vão falando da revolta.

A tua cicatriz mais a minha cicatriz vão lembrando o chicote.

As minhas mãos mais as tuas mãos vão pegando em armas

A minha força mais a tua força vão vencer o imperialismo

O meu sangue mais o teu sangue vão regar a vitória.

É claro que não vencemos o imperialismo mas estamos a construir um país enquanto a nossa Matola assiste. Voltei a Matola porque acabou a música e dá para olhar que o seu presidente quer reger uma orquestra virado para o público. É por essa razão que está preocupado com os seminários para aparecer sempre em público através dos órgãos de informação.

Aquele abraço

PS: Não consigo fazer o upload da música aqui. Quem a quiser que me dê um toque por email.

PC

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Morte de Jeremias e Fim Da Crítica

Difícil não é lutar por aquilo que se quer, mas sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer!

Bob Marley

A Rosa Langa

Por todas as inconfidências

e tudo que nos rimos e sonhamos.

Querida Rosa Langa,

O ano começou e ainda não tivemos tempo para falarmos sobre os teus grandes projectos. Espero que esta carta te encontre em tua melhor forma, como uma verdadeira 4X4.

Falando de projecto “nha” Rosa, na terça-feira com a corrida pela tomada de posse dos deputados provinciais fiquei preso a notícias de todos os cantos e me esqueci de te escrever. Por todas as razões tinha de ser para ti a minha primeira carta deste ano.

Sabes maninha, ando desesperado a procura de algo que me surpreende. Quando oiço o General Líder Mais Bonito e Jovem Dhlakama a falar, por causa daquela sua “determinação” herdada nos longos anos da luta, espero sempre para ver o que realmente irá acontecer. Tu me conheces “nha” Rosa e sabes que a violência não é minha praia. Mas acredite que eu gosto do discurso do general e me ponho sempre na expectativa para ver qual será o final da novela que ele escreveu.

Foi, acredite mana, num misto de alegria e pena que vi os deputados da Renamo todos elegantados nos seus fatos para tomarem posse. Era como se assumissem um ar de desafio a liderança do General. É como se o tigre tivesse perdido toda as suas garras e se valesse apenas da pele para amedrontar as crianças.

As “más línguas” (?) dizem também que os próprios deputados eleitos para a Assembleia da República vão desobedecer o líder, não por causa do seu compromisso com a pátria, em particular os seus eleitores, mas pelos 40 mil de meticais que os esperam naquela casa do povo. É coisa para se dizer isso mana?

Eu prefiro acreditar que o farão por um dever patriótico. Mas se tu, minha querida irmã, pudesses, ao teu jeito, fazias uma edição das Inconfidências de Dhlakama, quem sabe se ele não nos diria o que realmente vai na sua alma.

Querida Rosa, sei que estas coisas de política te deixam mal disposta.

Não é tua praia!

Por isso que vou parar apesar de não me faltar a vontade de te falar da entrevista de Daviz Simango ontem, principalmente quando faz um recuo a história da Frelimo até a morte do seu pai. É interessante ver como ele bebeu dos camaradas, me pareceu guardar tumularmente um segredo, uma espécie de pacto de sangue dizendo simplesmente que “alguém vai contar”.

Bom, maninha, sei que me dirias simplesmente que isso é com eles. Sei como foges dessas coisas. Precisas apenas de curtir uma boa música, pegar tua muchila e descobrir sítios onde há gente que acredita que Samora ainda é presidente de Moçambique, onde quem tem uma bicicleta para ir a Malawi comprar açúcar para vir vender em kwacha porque nunca pegaram metical.

Olha “nha” Rosa, pensei em te escrever esta carta na madrugada de dia 2 de Janeiro, na ressaca de “ano novo”. Sabes companheira, naquelas horas que nos achamos ricos, tiramos cadeiras e nos deixamos estar no meio de uma das ruas do meu T-3. Um dos meus amigos estacionou seu carro, abriu as portas e ligou, qual poderoso, num bom volume para que todos ouvíssemos a forte voz de Jeremias Ngwenha.

Mana, não te posso jurar que estava lúcido, não havia condições morais para minha lucidez naquela hora, mas eu podia ouvir de verdade Jeremias Ngwenha. Acordei estes dias todos lembrando os seus temas e os repetia mentalmente para que não me esquecesse do quanto não paramos para pensar nisso.

Penso que Amosse Macamo (como vai mano?), um especialista em música moçambicana ainda não se deu tempo para olhar para a morte de Jeremias como o fim da crítica na música. Sei que é exagerado chamar a isto de fim mana Rosa, e que o justo seria o silêncio.

Os rappers, mais pela origem do próprio estilo em que os Ganster Rap se evidencia como um ritmo de pretexto, onde a letra é mais importante que toda a componente da música, se esquiva desse papel.

O rap moçambicano me parece estar mais talhado ao que se considera “música de revista”, mais ao estilo dos jornais que vão relatando “o povo está com fome e saiu a rua”, e quando quer pegar pesado vira-se contra um dos seus companheiros.

Na segunda-feira fiquei a olhar para TVM passando uma série de música Rap e chamou-me atenção YoYo, primeiro pelo título da música “Mesmo Bandido”. Depois era a letra onde assume “sou gangster armado” e manda recados fortes a Danny OG.

Esta é uma faceta do Rap, mas acho que rhythm and poetry do nosso país pode ser muito mais explorado como já o fizeram bem os G-Pro em “País da Marabenta”.

Voltando a Jeremias Ngwenha, mana, o que gostava dele é a capacidade de fugir desse estilo de revista é nos oferecer coisas que vivemos nos nossos dias como se fosse uma descoberta sua. Te lembras de “vada voche”? – penso que é assim que se escreve. Ele abandona o estilo clássico de poesia que, curiosamente encontramos no Rap, falo de versos em rimas, e assume o lado “vadio” para nos alertar que há gente que se esquece que nós existimos.

Jeremias não era adorado pelos seus “olhos azuis”, mas por uma mistura de espectáculo, música e letras que cada um que subia “chapa la ni kakaulhula” sentia na pele o que é estar numa bicha que não anda.

Percebes o que estou a tentar dizer “nha” Rosa?

Estou a falar de letras não muito eruditas ao estilo de “povo no poder”, mas sim de uma “surpresa” que Jeremias apanha em “Kase Ka Maputso ku ta”? Algo como “afinal Maputo é assim?” e ele começa a descrever os dissabores e o fim de sonho que atinge todos que olham para Capital como a terra onde tudo acontece.

“Nha”Rosa, o ano ainda está a começar e sei que vamos ainda nos encontrarmos para um mousse de chocolate.

Até lá maninha, espero que a segunda edição do teu livro Moçambique, Mulheres e Vida volte a esgotar como a primeira.

Um beijo, sem nenhuma inconfidência.

PC

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Poema que Não te Escrevi (Feliz 2010)

Matola, 18 de Dezembro de 2009

Companheiros,

Estamos em Dezembro. Corremos. Corremos por causa do trabalho, corremos pelas festas, corremos pela vida, corremos pela família. A verdade é que corremos. E corremos muito. Nessa longa correria só não devemos nos esquecer de dizer aos nossos amigos o quanto os estimamos, o quanto os queremos bem e o quão bem queremos que passem as festas. Eu não podia esquecer. Eis me aqui vos desejando tudo isso, MUITO DINHEIRO e juízo.

2009 se vai, 2010 vem ai e já que se discute aquecimento global, deixo vos com o o Poema que não vos escrevi em 2009 (também já publicado aqui).

O Poema Que Não te Escrevi


Acredito que o amor é eterno!

Terei todo o tempo do mundo para te escrever um poema de amor.

Este é o poema que não te escrevi. Não tenho tempo para te falar das flores e da água do mar. O mundo está em chamas e nós marchamos nas avenidas universais apelando pela paz.

Formamos movimentos anti-globalização ou pela globalização cooperativa em que não só consumimos macdonald como também oferecemos xigubo. E de bandeiras em punho seguimos na frente de combate apelando para o fim da guerra e para redistribuição da riqueza por partes iguais. Somos guerreiros modernos que ainda acreditam que o movimento cívico é das armas mais letais.

Não tenho tempo para te escrever um poema meu amor!

Acreditava que a nossa causa era justa, que iríamos vencer para oferecermos um mundo melhor aos nossos filhos. Aí, todas as noites antes de dormirmos faríamos amor e te recitaria poemas ao amanhecer sem medo e sem ver nas televisões noticiários de guerra, sem me envergonhar pelas tristes imagens de Darfur. Dizias-me que essa era utopia de homens modernos que não aceitam ser comunistas mas continuam a perseguir o sonho vermelho em shows de Bono Vox e Bob Geldof. Pode ser meu amor, mas a minha ideologia é um comunismo capitalista!

O show vai acabar meu amor, aí iremos a beira-mar ver o pôr-do-sol e te escrever um poema de amor.

Agora não tenho tempo para te escrever esse poema!

Agora tenho de escrever meu manifesto para a Nina. Ela não entende poemas de amor, ela não entende linguagem de paz e amor enquanto vê uma imagem chocante de G-8 em volta a uma mesa farta em que os líderes não comem por não saberem o que comerem enquanto de outro lado, no vale de Níger onde se sente o rico cheiro de petróleo há muita gente que não come por não ter o que comer.

Agora não posso te escrever um poema de amor!

Tenho de falar dos homens sem tecto que sonharam com um país melhor e o máximo que conseguiram foi uma bala no seu corpo e um despachado caixão de seus companheiros de luta enterrado debaixo da terra como tecto.

Achas que me resta tempo para te escrever um poema de amor?

Quando o mundo for melhor, te escreverei um poema de amor. Falarei do seu corpo a escaldar enquanto te contorces de prazer, qual sol sobre África em tempo de aquecimento global.

Vês meu amor, agora só sei falar de aquecimento global, só sei falar do protocolo de Quioto, só sei falar de questões ambientais que vão dando cabo deste continente, da água que será a principal causa da guerra.

O poema que não te escrevi, fala das crianças a correrem no meu país sem medo de bombas sem temerem a diplomacia de guerra. O poema que não te escrevi fala dos teus olhos a brilharem por não teres a preocupação do que comer amanhã.

Poema que não te escrevi é um poema de paz e amor!


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

História da Vida Privada

As vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo

passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas

pequenas demais para torná-los reais!

Bob Marley

Ao velho General

Matola, 4 de Novembro de 2009

Meu velho general,

Desta minha Matola onde Basílio Muhate e Milton Machel, sem compreenderem como nós os dois que é bom criar trincheiras, dizem que fico a me fantasmagorizar, te escrevo esta carta de quem nunca percebeu para quê servem as armas, muito menos as guerras.

Mas há tanta coisa que eu não percebo meu general. Por exemplo como é que não consegues compreender que o jogo acabou mesmo depois do apito final.

Quando falo do jogo me recordo de uma entrevista que deste na TVM, há anos para o programa “Estamos Juntos”, penso que era esse, de Emílio Manhique onde falavas do teu amor pelo futebol e que não gostavas por nada de perder.

Me disseram que também és do Ferroviário, General. Penso que agora que mudaste a capital para Nampula dificilmente irás ao Estádio da Machava. Eu também não iria General, aliás, também não vou apesar do Estádio estar no quintal da minha casa.

Mas o senhor tem outras razões para não se dirigir a Machava. Não se pode trocar Nampula pela Machava.

Olha General, eu percebo a tua vontade de mudar a capital para Nampula. Eu também se tivesse o mesmo poder que o senhor o faria. Não quero acreditar que seja por razões políticas. Há coisas mais importante que política. A minha amiga Ani, romântica como ela sempre foi diria mesmo que há coisas mais importantes que política e dinheiro e nós os dois sabemos o que é.

Se meu amigo Egídio Vaz, um ilustre bicho político, viesse me dizer que a política está em tudo, ficaríamos logo com a certeza que ele nunca foi a Nampula com espírito de um verdadeiro cavalheiro.

Em Nampula aprende-se a saborear com os olhos o mais puro da beleza sensual. É só te pendurares num dos postes das velhas ruínas da Ilha de Moçambique para te deliciares com a sensualidade da dança de um feminino corpo macua, como as senhoras do grupo Estrela Vermelha. Sabe general que sempre que olho para aquelas mulheres dançar com toda aquela levaza chego a pensar que elas controlam o tempo?

Sim, lá se controla o tempo. Pelo menos elas controlam o tempo, elas ditam as regras e tu te apaixonas, soltas o verbo e pensas que caçaste quando não passas de uma presa.

Penso que um homem honesto e de uma boa família, isto só para não dizer bem-educado, não pode ir a Nampula casado. Em Nampula não se vai casado casa-se lá.

Voltando aquela entrevista, General, eu percebo hoje o porquê da promessa de pôr o país a “arder chama”.

Mas no lugar de olhar para o que os outros fizeram para que o senhor não ganhasse estas eleições, porquê não prestar atenção àquilo que o General fez para perder.

Penso General que o senhor não se apercebeu que uma luta política não se ganha com as mesmas estratégias de guerrilha. Penso que se esqueceu de se desmobilizar. Se esqueceu da famosa frase de “um homem válido na guerra é inválido na paz.”

O senhor conseguiu manter-se líder. Mas faltou dar sustento a essa figura de “líder” que sempre ostentou.

Repetiu a ideia de ser mais jovem e mais bonito como se eleições fossem concursos de beleza e porte físico.

Nos 45 dias de campanha eleitoral, meu General, o senhor fez um clássico passeio pela zona norte, só para não dizer Nampula, deixando poucas horas para sul. A sua explicação na entrevista da RDP – África foi de que sul representa 22% da capacidade eleitoral.

General, nunca ouviu os economistas dizerem “cuidado com os pequenos furos porque fazem grandes rombos”?

Não General, acho que a sua estratégia, pode até ter sido boa em termos militares mas politicamente não funciona. Não funcionou General!

A prova disso são os discursos agressivos que o senhor faz e os seus acólitos, Banrarano e Ivone Soares fazem eco.

Mas como o senhor mesmo diz, esses são miúdos. Me preocupa mais o que o senhor como líder diz.

Repetiu várias vezes que era pai da Democracia. Não se preocupou por essa menina “Democracia” nascesse de uma mãe incógnita. Teve todas as oportunidades para a abortar mas preferiu deixa-la crescer para a assassinar agora.

É general, vê que isso não faz sentido?

O senhor diz que ainda tem idade para se candidatar. Acredita que um dia será Presidente desta República como o foi Lula da Silva. Para mim o General está mais próximo Jean-Marie Le Pen.

Sei que não tenho direito de me meter na vida do seu partido, mas acho que é hora exacta para sair de mansinho e irmos sentar na nossa nova capital apreciar o que de mais belo há lá.

Aquele abraço

PC Mapengo