quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Paranóia Colectiva

Paranóia colectiva




Faço um esforço para manter os meus olhos abertos. Acho que este é o negócio final mais difícil de escrever, não pela falta da tal famosa “inspiração”. Estou com o corpo cansado e os olhos a não mais obedecerem-me de tanto sono depois de uma noite circulando pelas

ruas de Infulene nas patrulhas.



O medo instalou-se pelos bairros. O povo decidiu sair à rua para fazer o papel que devia ser da Polícia. Enquanto os dirigentes desta pátria amada se contentam em sentarem-se nas confortáveis poltronas e dizerem que isso não é prioritário, ou como decidiu fazer o ministro do Interior, pura e simplesmente dizer que esse grupo de criminosos engomadores não existe, a população optou por criar as suas próprias defesas.



No fundo, o que o Ministro do Interior, Alberto Mondlane e os outros camaradas fi zeram nestes dias todos, foi optar pela linha mais fácil que, de certeza, não se espera de um Estado onde tem cidadãos que pagam impostos. Dizer que esse grupo não existe é um caminho mais fácil. É o mesmo que aparecer de fato novo e dizer pessoal, foram atingidos por uma paranóia, voltem para casa e durmam em paz. Ainda bem que Sua Excelência Alberto Mondlane veio

mudar esse seu discurso quatro dias depois.



Mas que fique claro uma coisa: pode não existir tal de G20, G1 ou Gzero, mas existe criminalidade violenta em Maputo. Existem pessoas “de carne e osso” que foram assaltadas na paz das suas residências, agredidas, violentadas e outras que tiveram medo de lá voltarem. O mais importante aqui não são os nomes ou os números que se dão a essa gente, é a acção dela.



A solução desse problema não é simplesmente negar a sua existência e fazer passar a ideia de que gente que não está a dormir para fazer patrulha sofre de alucinação colectiva.



O pânico instalou-se! As pessoas saíram à rua para fazerem o trabalho que aparentemente devia ser da Polícia!



Mesmo que seja apenas uma paranóia colectiva, qual é o papel de um Governo preocupado com o seu povo? Acho que é fazer o mesmo que um pai zeloso faz quando o seu fi lho tem medo do escuro, fazer de tudo para que sinta que ele está ao seu lado e que não há perigo. Mas não é isso que se está a ver. Estamos a assistir uma clara falta de respeito para com essas pessoas assustadas pelas notícias de assassinatos. Pior, é que o nervosismo que acompanha

os famosos grupos de patrulha torna estes violentos, cria-se um estado de sítio e um claro clima de guerra que resulta em morte de inocentes, pessoas que são simplesmente confundidas.



Ainda bem que os discursos do ministro e do comandante-geral da Polícia, Jorge Khalau tomou outro rumo, pois continuar a dizer que não existem esses grupos para depois os seus homens anunciarem a detenção de “perigosos cadastrados que assaltam residências e torturam

pessoas” seria caricato. Como podem deter pessoas que não existem? Um País como esta pátria amada, que se quer sério, precisa de polícias que garantam segurança e não que andam a deter fantasmas!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta ao General (Actualizada)

As vezes construímos sonhos
em cima de grandes pessoas...
O tempo passa... e descobrimos
que grandes mesmo eram os sonhos
e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!
Bob Marley







Meu velho general,



Desta minha Matola onde Basílio Muhate e Milton Machel, sem compreenderem como nós os dois que é bom criar trincheiras, dizem que fico a me fantasmagorizar, te escrevo esta carta de quem nunca percebeu para quê servem as armas, muito menos as guerras.


Mas há tanta coisa que eu não percebo meu general. Por exemplo como é que não consegues compreender que o jogo acabou mesmo depois do apito final.


Quando falo do jogo me recordo de uma entrevista que deste na TVM, há anos para o programa “Estamos Juntos”, penso que era esse, de Emílio Manhique onde falavas do teu amor pelo futebol e que não gostavas por nada de perder.


Me disseram que também és do Ferroviário, General. Penso que agora que mudaste a capital para Nampula dificilmente irás ao Estádio da Machava. Eu também não iria General, aliás, também não vou apesar do Estádio estar no quintal da minha casa.


Mas o senhor tem outras razões para não se dirigir a Machava. Não se pode trocar Nampula pela Machava.


Olha General, eu percebo a tua vontade de mudar a capital para Nampula. Eu também se tivesse o mesmo poder que o senhor o faria. Não quero acreditar que seja por razões políticas. Há coisas mais importante que política. A minha amiga Ani, romântica como ela sempre foi diria mesmo que há coisas mais importantes que política e dinheiro e nós os dois sabemos o que é.


Se meu amigo Egídio Vaz, um ilustre bicho político, viesse me dizer que a política está em tudo, ficaríamos logo com a certeza que ele nunca foi a Nampula com espírito de um verdadeiro cavalheiro.


Em Nampula aprende-se a saborear com os olhos o mais puro da beleza sensual. É só te pendurares num dos postes das velhas ruínas da Ilha de Moçambique para te deliciares com a sensualidade da dança de um feminino corpo macua, como as senhoras do grupo Estrela Vermelha. Sabe general que sempre que olho para aquelas mulheres dançar com toda aquela levaza chego a pensar que elas controlam o tempo?


Sim, lá se controla o tempo. Pelo menos elas controlam o tempo, elas ditam as regras e tu te apaixonas, soltas o verbo e pensas que caçaste quando não passas de uma presa.


Penso que um homem honesto e de uma boa família, isto só para não dizer bem-educado, não pode ir a Nampula casado. Em Nampula não se vai casado casa-se lá.


Voltando aquela entrevista, General, eu percebo hoje o porquê da promessa de pôr o país a “arder chama”.


Mas no lugar de olhar para o que os outros fazem para que o senhor não ganhe as eleições, para que se ponha em causa as suas ordens, para que se recuse um diálogo puro por parte do seu oponente, porquê não prestar atenção àquilo que o General faz para perder.


Gostei do seu regresso em Cabo Delgado meu General. A nossa política estava a ficar nos mesmismos com os avanços e recuos do ministro dos transportes, com a falata de coesão nos discursos da cesta básica do nosso Governo, com auto elogio do partido no poder. Estava tudo cansativo e precisava de algo novo de uma outra linha. O seu despertar nessa província das lindas praias veio mudar o discurso político e pôr gente a comentar algo diferente. Parabéns general.


Contudo general, penso que o senhor não se apercebeu que uma luta política não se ganha com as mesmas estratégias de guerrilha. Penso que se esqueceu de se desmobilizar. Se esqueceu da famosa frase de “um homem válido na guerra é inválido na paz.”


O senhor conseguiu manter-se líder. Mas faltou dar sustento a essa figura de “líder” que sempre ostentou.


Repete a ideia de ser mais jovem e mais bonito como se eleições fossem concursos de beleza e porte físico.


General, nunca ouviu os economistas dizerem “cuidado com os pequenos furos porque fazem grandes rombos”?


Não General, acho que a sua estratégia, pode até ter ser boa em termos militares mas politicamente não funciona General!


Não acredito que funcione a sua ostentação de força apresentando-se como o homem mais armado desta nossa “Pátria Amada” mesmo reconhecendo que a nossa segurança é composta por uns “magrinhos” que o General pode pegar “um a um”. Porquê lembrar sempre os nossos pecados? Porquê tem de nos pôr constantemente entre a bazuca e a parede?


Sei que não tenho direito de me meter na sua vida, mas acho que é hora exacta para irmos nos sentar na nossa nova capital apreciar o que de mais belo há lá. Vamos ouvir Boby Marley e reinventarmos a nossa paz.


Aquele abraço, General

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Cor Apagada de Matalana

A alma humana é como a água:
ela vem do Céu e volta para o Céu,
e depois retorna à Terra, num eterno ir e vir.
Johann Wolfgang Von Goethe, escritor e pensador alemão

Para Virgílio Sitole, o bailarino de Matalana




Gostava de saber como é que um coreógrafo na China recebe a notícia da morte de um pintor. Um dia te escreveria para falarmos de Matalana, que há muito tempo não vamos para nos esquecermos da correria da cidade.


Sabes Virgílio, as cidades têm esse poder de nos sufocar nos tristes noticiários de austeridade, que nunca percebemos em quê realmente se corta e onde os preços realmente foram congelados. É onde fingimos a nossa existência empacotados nos fatos e gravatas, como se neles reflectíssemos toda a nossa inteligência. Assim fingimos a nossa seriedade.


A cidade é uma existência irrealista, onde mais do que ser é preciso parecer. É preciso sentar-se na explanada de um restaurante caro e pedir um duplo de wiskey com muito gelo, demorar-se duas horas na mesma página de jornal simplesmente para muitos passarem por ti e acreditarem que tens condições para pertencer à elite.


Por isso que nós íamos à Matalana, Virgílio. Lá voltávamos à nossa condição humana. Não tínhamos de parecer inteligente com uma pequena chávena de café que tomávamos em duas horas numa explanada de luxo. Tínhamos de parecer nós.


E fomos na roda de canhu em Fevereiro, numa casa enfrente a obra de Malangatana, onde entramos feito turistas e vasculhamos cada detalhe da sua construção como se inspeccionássemos o tempo. Admirávamos tudo que, para ti, sobrinho do mestre, parecia normal. Até à sua grandeza era para si normal. Penso que essa é a desvantagem de ser parente de astros, pois nunca conseguimos ter a noção do brilho deles.


Será que conseguias olhar para ele para além dessa condição natural de ser seu tio, ascendendo para o seu estatuto de artista universal que não precisava de ser apresentado? Perguntei-te isso quando subíamos o areal que dava à casa da sua mãe Tchembene, onde os velhos se reuniam para beber xindere com o prazer diferente do nosso beber wiskey para ganhar estatuto.


Sim, Virgílio, em Matalana a música é uma coisa permanente. É como se as pessoas inventassem motivos para cantarem. É como se tudo desse uma linha para música. Por isso que essa tendência “malangatana” para cantar em qualquer momento não me surpreende.


Melhor seria dizer que Marracuene pode não ter criado a música, mas aquele distrito soube fazer da música a sua forma de respirar. Por isso que surgiu esse eterno “duelo” de Fanny Mpfumo e Dilon Djindji. Tu sabes, Virgílio, que são dois mestres que entrar em debate sobre quem é melhor não interessa.


Mas, quando te falava da roda de canhu em Matalana, onde Malangatana apareceu e pôs-se logo a cantar tamboreando a sua barriga como a electrizar todo o mundo para o seguir, alguns velhos que se juntaram a nós foram falando de Dilon. Mesmo não sendo de Matalana, a sua fama de “Don Juan”parece ter se estendido por lá, onde espalhava seu charme juvenil com uma viola, que o dava passaporte nas principais cerimónias do distrito. Dilon diz que “marrabenta” vem também daí. Recorda-se que nos contou também em Matalana, essa sua tendência de arrebentar com todas.


Se Marracuene teve a capacidade de criar estrelas como Dilon, Armando Mabjaia e Fanny, Matalana conseguiu chamar para si, na sua miniatura, senhores que dominariam o panorama cultural moçambicano, como o fez Lindo Lhongo.


Como Malangatana, Lhongo teve a capacidade de voltar às origens e beber tudo que as ervas do seu Matalana o podiam oferecer. Se formos a falar de dramatologia moçambicana, Lhongo posiciona-se como o líder da fileira. “O lobolo” é a sua mais emblemática obra. Lhongo distancia-se do tradicionalismo que muitos procuram demonstrar quando tratam destes assuntos para mostrarem que são mais africanos que os outros. Ele apresenta-se como artista que deixa a alma falar mais do que as regras que os críticos colocam. A isto Malangatana dizia que era “pintar o que sonho ou o que está na cabeça”. Esse parece ser o lema dos senhores de Matalana, deixar a alma falar mais alto que a cabeça.


Em Matalana, onde há muito não voltamos mano para sentarmos à volta da fogueira e fingirmos sermos bons contadores de história na noite, onde, mentalmente, inventamos monstros com base nas pinturas de Malangatana, sentias a verdadeira paz.


Podia voltar agora para vermos as longas pernas de Mudledlelene que se posiciona logo na entrada do Centro Cultural, como se fosse guardião dos segredos dos filhos da terra. Gostava do mito de Mudledlelene que você e seus companheiros de “Batalhão Zero” contavam nessas noites. É nas noites que animavam as histórias. Depois de irmos convencer a sua mãe e cunhada do mestre, Tchembene para nos dar uma “primeirinha”- diziam ser boa para lombrigas – as noites ganhavam cor e nós nos inspirávamos.


Diziam que Mudledlelene estava contra os amores roubados. Os homens e mulheres encontravam-se no extenso mato de Matalana para se amarem. Preferiam sempre as noites sem luar para se esconderem-da visão feiticeira de Mudledlelene. Quando os amantes se entregavam aos prazeres Mudledlelene – não conheço o seu género, apesar das belas ancas – aparecia e dizia “ni ku vonile”, o mesmo que “ti vi”.


Malangatana não escondia as histórias de feitiçaria que moldavam Matalana. Assumia essa sua existência e assim assumia a sua condição de homem de uma terra com identidade própria. Era como se dissesse sou do mundo, mas sou daqui. Penso que é isso que faz a vocês também jovens de Matalana, Virgílio. Podias ser simplesmente um coreógrafo da cidade que se perde pelas terras chinesas e não volta a Matalana para buscar os fantasmas que te assustaram na infância para o seu bailado, como também não o teria feito Cardoso Lindo como encenador, ir buscar à forte tradição da terra do seu pai Lindo Lhongo para contar a história colonial.

Ir à Matalana era minha forma de fugir a essa inexistência, que a cidade me oferece e tentar encontrar-me na terra onde todos aprenderam na infância a serem artistas. Onde ainda voltam nas noites quando os bebés nascem para as mostrar a lua ao jeito de “kenkeguelekeze”.

Um dia vou escrever-te sobre Matalana sem ser para falar da dor ou da cor “apagada” de Matalana.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Memórias de um Espectáculo: O Dia que Chico Inventou a Música

Retirado daqui.

Memórias de um espectáculo
Policarpo Mapengo

Prometeu uma viagem aos temas que contaram a história deste país e fez uma digressão pelo seu próprio percurso musical como quem prova que “não só de memórias vive o Chico”.


Tinha prometido uma visita a sua memória. Assim recriou-se em pensamentos um espectáculo que faria uma viagem pelos tempos de bacela como “Merkandonga” onde todos reclamavam – o cliente e o vendedor: “dizem que estamos a lhes burlar mas não sabem que também compramos a preço elevado”- justifica-se uma das vendedoras na música que já nesse “antigo tempo” mostrava a importância das influências. “Unga mu dzivale Ibrahimo” ou “não te esqueças de Ibrahimo, é um velho cliente, passe-lhe o camarão por trás para que os outros não se apercebam”.


Essa música saltava da platéia entre os intervalos dos outros temas que Chico António ia interpretando. Era como se lembrasse a estrela que havia uma música escondida na sua memória, tal como o “hantlisa maria” – depressa Maria, arrume as suas coisas que tem um carro que vai a Gaza.”


A província de Gaza era vista como ponto de partida para o desenvolvimento. Podia também simbolizar o campo de onde se podiam – também nessa altura – ver como o pólo de desenvolvimento. Era desta província onde residia o sonho de alimentar o país com o arroz de Chòkwé.


As performances de Chico António têm, para o artista, o dilema de se criar “espectáculos paralelos”. É como se o público respeitasse as escolhas do artista mas que exigisse também que este corresse pela sua vontade. Mas é com a classe e segurança, aliada a nomes como Carlitos Gove, Paito Tcheco, Rufus e Simão. Juntou vozes femininas e levou um violino para sublinhar as músicas.


Quando, na semana passada se fez ao Franco Moçambicano para um “back to the time” foi buscar temas marcantes como “Baila Maria”. Na Orquestra RM, Chico António fez com Mingas uma das mais brilhantes duplas deste “País da Marrabenta” como diriam os Gpro. A ideia, contou Chico António ao “País Fim de Semana”, quando compôs a música era cantar sozinho e em português, mas convencido pelos seus “bosses” juntou a brilhante voz de Mingas e mudou para “tsonga”. Nasceu assim um dos clássicos deste “alquimista” da música que faria Manu Dibango retirar-se do seu sossego e o dar Prémio Rádio França Internacional. “Depois disso senti que já não era mais o mesmo,” disse nessa entrevista.


Tinha razão, “já não era mais o mesmo”. Nos seus espectáculos, o de Franco não foi diferente, encontra-se esse Chico António que faz experiências e aceita todas as influências. – “Escuto todo o tipo de música, até rock metal”. Mas esqueceu-se de dizer que a sua música carrega toda essa dose como nos levando pelos becos sul-africanos na lembrança, mesmo que a distância, de Sipho Mabuzi ou então numa quase doce e lenta morte de reggae que podia se confundir com uma voz emprestada de Alpha Blond.


Depois se posiciona como um “soba” e dita o ritmo que o público tem de dançar. Serve com uma tendência blues as cadências de uma noite, nesse raro jeito de arrancar aplausos com “Comer Camarão”.


Mas nessa relação com o público, Chico sabe que há coisas que não se podem fugir. Os grandes artistas sabem, disso, mesmo quando desligam os equipamentos e simulam um “asta la vista”. Sabem que não é isso que faz com o que o público abandone a platéia como também sabe que este pode ficar na sala e exigir – no caso de Chico António – que se cante “hantlisa Maria” e demonstrar essa vontade de ir a Gaza “pegar na enxada, plantar mandioca e criar gado.”

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Para quê Escrever Depois de Ualalapi?

Um livro que não se pode ler duas vezes
não merece ser lido uma vez.
(Já não me lembro onde li isto)

Para os meus velhos companheiros
na garagem, primeiro, e na varanda da AEMO,
nas noites que discutíamos literatura.
Fui ver Ungulani

Já não é boémio dos tempos que se seguiram quando, nos anos de 1990, o seu nome se confundia com Ualalapi. Nessa altura, entrávamos pela garagem da AEMO e juntávamo-nos para discutir sobre artes na Aro Juvenil e olhávamos para nós e víamo-nos grandes escritores que poderiam repetir a revolução da geração Charua, que invadiu a casa grande e se tornou em senhores das artes.
É dessa geração o Ungulani para quem eu olhava à distância enquanto trocava frases com Eduardo White, em mais um dos tantos lançamentos de livro.

Entre fumos de cigarros, quais mais velhos, gritavam de palco onde Sangare Okapi lutava para não ser mais Cardoso Lindo só para não ser, simplesmente, o filho do dramaturgo Lindo Lhongo. Ele queria seguir o seu caminho de poeta sem o fantasma do pai.

Nessa altura, atirava-se ao palco para declamar os seus poemas eróticos, enquanto Augusto Tembe esboçava uma dramática crónica, e Roberto Isaías ainda cantava “eu não chamei tchumba, chamei namorada”, nos Satélites.
Eu, Frederico Jamisse e Sangare Okapi, como nos tempos em que fazíamos teatro no Tintlari ta Hosi, desafiávamos as distâncias da Lhanguene para juntarmo-nos à malta entre todas as paixões que acompanhavam. Jamisse escrevia poemas de meter medo, onde repetia a ideia de sangue, sexo e violência e assinava como Freddy Cooper.
Milton Machel deixava-se levar em textos da Oasis e, mais tarde, declarar-se-ia – ou sempre foi assim - um rapper nas páginas culturais do Campeão onde, depois de correr desportivamente nas ruas de Alto Maé, atravessava a 24 de Julho para escrever poéticos textos de básquete.

Foi nessa altura que queria entrevistar Ungulani Ba Ka Khosa. Guardava ainda a troca de frases que fez com White em que um defendia “leiam para depois escreverem” e outro dizia “escrevam”. Nós queríamos escrever. Éramos putos que se assumiam escritores como o faria Ligeiro em “vendo poemas”.
Mas também era dominado pela paixão. Lembras-te Milton? Já falei sobre essa relação paixão e amor no que diz respeito ao jornalismo. Era altura em que éramos os putos do Campeão, quando importava mais correr e deixarmo-nos deliciar com os textos todos eles poetizados. Penso que fui vítima de Homero Lobo, esse meu mestre que, quando cheguei ao jornal pela primeira vez, olhou para mim e disse: - Escreva!
Não sabia o que iria escrever, mas tinha de escrever.
Ualalapi, de Ungulani, ecoava na minha cabeça quando liguei para ele a querer entrevistá-lo. Penso que na altura não sabia o que lhe iria perguntar. Acho que repetiria as perguntas dos testes da disciplina de português que faziam a pergunta que mais detestava.

“O que o autor quis dizer?” –irritava-me essa pergunta. Como saber o que o autor quis dizer?

Para Ungulani, não fazia sentido que um principiante o quisesse entrevistar. “Para vir perguntar meu nome e minha idade.” Justificou-se no encontro que teve com Homero.

Não sei se o perguntaria isso. Mas penso que falaríamos de Ualalapi. Ou perguntar-lhe-ia por que é que alguém que escreveu Ualalapi ainda precisa de publicar mais um livro. Porquê não se exilou nesse clássico que é um dos cem maiores livros africanos do século passado, como fez Luís Bernardo Honwana depois de “Nós Matamos o Cão Tinhoso”?

Porquê escrever depois de Ualalapi?

Essa pergunta perseguiu-me há dias quando combinámos a entrevista adiada há 12 anos. Não era mais o boémio dos tempos, mas mantém a sua coerência quando o assunto é política, como também não esconde o seu desamor quando fala de Samora Machel. “Era um ditador!”

Mas porquê escrever depois de Ualalapi? Perguntei, quando se posicionava para a fotografia. Não deixou de rir enquanto eu acrescentava. “Se fosse eu, depois de Ualalapi, não escreveria mais.”

Ele tem outra opinião. Nós é que andamos presos à fantasma de Ualalapi, mas ele já se libertou, razão pela qual consegue escrever outros livros como o seu mais recente “Choriro”.

Esta é uma carta que escreveria também para esse grande senhor da literatura africana, que soube desconstruir a história do império de Gaza para nos oferecer um livro sem preconceitos, onde os exageros o dão toda a grandeza.
Para Júlio Mutisse, esse meu irmão de todas as batalhas, “Orgia dos Loucos” é o melhor não só pela profecia que faz ao nascimento da Rosita numa árvore no tempo das cheias, mas tambem pela forma clara como olha para uma sociedade como um mundo de loucos.

Pode ser. Mas Ualalapi é Ualalapi.

Aquele abraço.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Jornalismo, Bachir e a Causa Nacional

“A sociedade que aceita
qualquer jornalismo
não merece jornalismo melhor."
Alberto Dines
Querida Zenailda Machado
Matola 12 de junho de 2010
Nunca percebi melhor o que queria dizer um jornalista e escritor brasileiro quando revoltado com a sua profissão e arte disse com raiva: “chega de escrita, vou plantar batas e criar porcos!”
Era a descarga de quem engolira tantos sapos e se desiludira com aquelas que para muitos – até para mim – é a apaixonante profissão. Mas ontem Z, me apercebi que o caso Bachir põe em causa a nossa capacidade de pensar friamente.

Não sei se dessa distância que te encontras da nossa índica pátria amada te apercebeste das trincheiras que se formaram. Os jornalistas se demitiram do seu papel e se posicionaram claramente como “advogados” – de defesa e da acusação.

Os discursos jornalísticos que foram repetidos nos jornais e TV’s moçambicanos quando a notícia de “Bachir barão de droga” explodiu como uma bomba, tinham um subtil tom de “ainda bem”. Era como se todos estivessem a espera desse momento. Os jornais não se deram tempo para julgar (o que não é tarefa deles) correram logo para o condenar (o que também não é tarefa deles). Na imprensa – e porque Barack Obama disse – ele era sem dúvidas “o barão de droga”da África Austral.

Z, ontem precisavas estar neste país do Índico. O assunto de Bachir era o assunto nacional. O país quase que parou para se acompanhar vídeo conferencias na Embaixada dos EUA. Os grandes senhores, os barões do nosso jornalismos, homens com opinião respeitada e que o público pára para os ouvir se encarregaram de estar nessa conferencia. Não era espaço para os “putos” pois o “droguismo”de Bachir é um caso nacional. Foram “hi u kulo” – como diria minha avo.

O mais chocante é a desilusão (ou alívio) com que muitos ficaram por aquilo que chamam de “falta de provas”. O discurso jornalístico mudou e como que a heroificação de Bachir os canos das escritas viraram-se contra os americanos “como é que Obama acusa sem provas?”

Os jornalistas seniores estavam revoltados por se ter sujado o nome de Bachir sem prova. Entrincheiraram-se e atacaram sem piedade “o que estes americanos pensam que somos?”

Até posso perceber a indignação Z, mas este caso me trouxe uma coisa assustadora. O nosso jornalismo é feito de reproduções de discursos. “Bachir é barão de droga!” todos correram e fizeram manchetes. As TV’s dedicaram 15 a 30 minutos ao tema, com reportagens feitas com “diz-se que”, “segundo o especialista...” O tempo e as páginas foram assim preenchidos para a satisfação de todos.

Depois veio “EUA não tem provas” para o bem do país.

Não se fez uma corrida em contra mão que eu acho que deve ser o jornalismo. Mais do que aparecerem darem suas caras de estrelas do nosso jornalismo e dizerem “EUA não tem provas” era importante ajudar a compreender este caso de uma maneira fria que se exige ao jornalismo e jornalista.

Acho que não é papel de jornalismo/jornalista defender ou acusar. A obrigação é informar, é colher dados e ajudar a compreender os fenómenos. É preciso questionar porquê EUA meteu Bachir nessa lista e porquê aparece agora a não fornecer dados concretos. E isto não se olha simplesmente em linha jurídica como muitos querem nos fazer compreender. Penso eu Z que este caso deve ser visto na esfera jurídica, diplomática e económica.

Mas este é o jornalismo que temos. Um jornalismo de emoções e jornalistas advogados.

Sem mais linda, receba um abraço cá do indico, com o calor próprio da minha Matola para te ajudar a aquecer nesse reino que se quer unido.
PC

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Última Entrevista: Respostas Imaginárias

Uma coisa boa sobre a música

é que quando ela bate

você não sente dor.

Bob Marley

Para Tony Django

Eu sei que nunca se vai parar a música,

mas acredite que ela não será mais a mesma.


Mano, esta é uma carta de memórias. Também é o que se pode fazer quando se dedica a uma estrela que temos de aprender a ver o seu brilho através do coração porque sabemos que ela “não brilhará mais aqui.”

Acho que nunca te disse, mas sempre me recordaste Peter Pan. Me prendia sempre a assistir esse personagem que o seu maior, senão único, medo era ser adulto. Queria prender se na eterna infantilidade e se deliciar com as histórias da Wendy porque “acreditava em fadas”.

Será que acreditavas em fadas Tony? Me esqueci de te perguntar isso na única entrevista que me concedeste. Foi só uma entrevista não por tua culpa, mas porque sempre tenho dificuldades de entrevistar os meus amigos. Fica-me sempre aquela sensação de que de todas as perguntas que vou fazer, tenho as respostas.

Agora sei que é presunção. Sei que muitas perguntas ficaram por te fazer. “Acreditavas em fadas?”

Nunca te perguntei isso, como também não te perguntei se serias capaz de fazer outra coisa senão cantar? Se podias ser uma outra pessoa que não Tony Django? Agora sei que não te conhecia.

Olhava para ti e me recordavas Peter Pan.

Sempre me fascinei com a sua fragilidade infantil de um personagem que amava como adulto e estava preparado para lutar e demonstrar seu poder perante capitão Gancho.

Tinhas esses traços frágeis de adolescentes e te soltavas em sonhos na poderosa música de adultos. “Uta Bala ka Mani” é onde aparece a tua potência como se o seu corpo franzino ganhasse massa e exigisse que olhassem para ti como adulto.

Katchume era o exemplo de música que se podia fazer nessa altura. Rompiam com os estrangeirismos que dominavam a juventude e corriam para as raízes sem deixarem de introduzir conceito world típico das grandes bandas africanas.

Depois do sucesso do Ghorwane, precisavamos de uma renovassão que nos ajudasse a compreender o verdadeiro valor dos bons rapazes. E Kapa Dêch deu uma resposta a altura e nós percebemos o quanto este país estava a precisar de equilíbrio em termos de música.

Se lesses esta carta mano, sei que saberias que não estou a fazer nenhuma comparação pois são dois grupos completamente diferentes. Não falo apenas nas suas estruturas como também em estilo de música. Estou simplesmente a dizer que vieram mostrar que há muitos caminhos pelos quais se seguir.

Penso que isso é o que falta nestes dias.

Me esforço agora que te escrevo, a ouvir Dorropa. Me esforço porque é arrepiante lembrar que cada música em que aparece a tua voz é exactamente a última música em que emprestas o teu encanto de “fadas”.

Dorropa me fascina. É como se, pela tua voz me oferecesse a imagem de uma cidade que está a ser vendida aos bocados e se enche de sugidade. É retrato de um país degradado.

Olha mano, também não te perguntei sobre este país. O que achavas deste país? Acho que – estou a ser novamente presunçoso – dirias “haaa deixa lá disso vamos lá ali....”

Então nos meteriamos pela rua da Resistência irias querer falar da música que era o que corria em ti. Insistirias em me contar, acho que pela oitava vez, o sonho de construireres uma casa primeiro andar onde embaixo funcionaria um estúdio ou um centro cultural.

“Querias viver com música em casa?”

Acho que diria – “obviamente, eu sou a música”.

Eu sei mano que a música não vai deixar de existir. Iremos a Malhangalene beber um copo. Vamos cantar no Gil Vicente e dançar no África.. A música vai continuar, mas não será a mesma coisa.

Não haverá Dorropa com tua voz, não vamos ouvir “Mamane” e o seu apelo a iguladade “hi tlanlane magoda hita ringanana – penso que é assim que se escreve – tirem-nos as amarras para estarmos ao mesmo nível - não se fará mais tributo sem teu nome, não haverá mais Tony Django na última correografia do espectáculo do K-10!

NI TA BALA KA MANI!Mano, esta é uma carta de memórias. Também é o que se pode fazer quando se dedica a uma estrela que temos de aprender a ver o seu brilho através do coração porque sabemos que ela “não brilhará mais aqui.”

Acho que nunca te disse, mas sempre me recordaste Peter Pan. Me prendia sempre a assistir esse personagem que o seu maior, senão único, medo era ser adulto. Queria prender se na eterna infantilidade e se deliciar com as histórias da Wendy porque “acreditava em fadas”.

Será que acreditavas em fadas Tony? Me esqueci de te perguntar isso na única entrevista que me concedeste. Foi só uma entrevista não por tua culpa, mas porque sempre tenho dificuldades de entrevistar os meus amigos. Fica-me sempre aquela sensação de que de todas as perguntas que vou fazer, tenho as respostas.

Agora sei que é presunção. Sei que muitas perguntas ficaram por te fazer. “Acreditavas em fadas?”

Nunca te perguntei isso, como também não te perguntei se serias capaz de fazer outra coisa senão cantar? Se podias ser uma outra pessoa que não Tony Django? Agora sei que não te conhecia.

Olhava para ti e me recordavas Peter Pan.

Sempre me fascinei com a sua fragilidade infantil de um personagem que amava como adulto e estava preparado para lutar e demonstrar seu poder perante capitão Gancho.

Tinhas esses traços frágeis de adolescentes e te soltavas em sonhos na poderosa música de adultos. “Uta Bala ka Mani” é onde aparece a tua potência como se o seu corpo franzino ganhasse massa e exigisse que olhassem para ti como adulto.

Katchume era o exemplo de música que se podia fazer nessa altura. Rompiam com os estrangeirismos que dominavam a juventude e corriam para as raízes sem deixarem de introduzir conceito world típico das grandes bandas africanas.

Depois do sucesso do Ghorwane, precisavamos de uma renovassão que nos ajudasse a compreender o verdadeiro valor dos bons rapazes. E Kapa Dêch deu uma resposta a altura e nós percebemos o quanto este país estava a precisar de equilíbrio em termos de música.

Se lesses esta carta mano, sei que saberias que não estou a fazer nenhuma comparação pois são dois grupos completamente diferentes. Não falo apenas nas suas estruturas como também em estilo de música. Estou simplesmente a dizer que vieram mostrar que há muitos caminhos pelos quais se seguir.

Penso que isso é o que falta nestes dias.

Me esforço agora que te escrevo, a ouvir Dorropa. Me esforço porque é arrepiante lembrar que cada música em que aparece a tua voz é exactamente a última música em que emprestas o teu encanto de “fadas”.

Dorropa me fascina. É como se, pela tua voz me oferecesse a imagem de uma cidade que está a ser vendida aos bocados e se enche de sugidade. É retrato de um país degradado.

Olha mano, também não te perguntei sobre este país. O que achavas deste país? Acho que – estou a ser novamente presunçoso – dirias “haaa deixa lá disso vamos lá ali....”

Então nos meteriamos pela rua da Resistência irias querer falar da música que era o que corria em ti. Insistirias em me contar, acho que pela oitava vez, o sonho de construireres uma casa primeiro andar onde embaixo funcionaria um estúdio ou um centro cultural.

“Querias viver com música em casa?”

Acho que diria – “obviamente, eu sou a música”.

Eu sei mano que a música não vai deixar de existir. Iremos a Malhangalene beber um copo. Vamos cantar no Gil Vicente e dançar no África.. A música vai continuar, mas não será a mesma coisa.

Não haverá Dorropa com tua voz, não vamos ouvir “Mamane” e o seu apelo a iguladade “hi tlanlane magoda hita ringanana – penso que é assim que se escreve – tirem-nos as amarras para estarmos ao mesmo nível - não se fará mais tributo sem teu nome, não haverá mais Tony Django na última correografia do espectáculo do K-10!

NI TA BALA KA MANI!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dos Bifes A Ditadura Da Media

"Se você não tem motivos para sorrir,

pelo menos não dê motivos

para os outros chorarem."

Anónimo


Matola, 14 de Abril

Uma canção para Seth Swaze

Pelo seu aniversário e

pelas músicas que nunca gravou

Mano, uma vez descansava o triste peso de um dia em que corremos atras do que não sabemos só para nos iludirmos que fazemos alguma coisa. De remoto na mão fui repetindo essa inaptidão a procura, nas nossas TV’s, de qualquer coisa que pudesse assistir. Sabes Seth, há horas que nos apetece partir o televisor por não nos estar a servir para nada. Mas esse dia fui me prender na 21ª hora, e Fernando Lima sugeria para ler “A Ditadura da Media”.

Me admira o poder disciplinador da media do mesmo jeito que me assusta a forma de interferir nas nossas vidas. Uma espécie de invasores impiedosos que se dão ao luxo de determinarem o que temos de fazer, onde devemos comprar e o quê comprar. Pior, a quem amar!

A media venceu. A Televisão tomou de assalto o papel previligiado dos pais e passou a ser o educador destes e dos seus filhos. Já te apercebeste do silencio que os pai impõe ao filho na hora do telejornal e aquele que a mãe sujeita quando passa uma telenovela?

Te dizia mano que a media venceu e determina onde comprar as coisas. Rui Michel foi a última vítima dos bifes por ter feito compras no Xipamanine. Va ka hina, por se ser músico não se pode fazer compras no Xipamanine?

O que mais intriga é concentração das pessoas para ver “daqui a pouco”essa grande matéria. E ainda me vem dizer que o tempo de antena na TV é caro. Façam-me rir.

Mas te queria falar de música mano.

Parti dos breves minutos da tua música ontem para recuar no tempo em que com Zé Manuel – onde anda esse companheiro? – fizeram uma parelha e percorreram um jazz todo gospelizado cheio de marrabenta que alertava “deixem os pintos crescerem”. Queria voltar para o poder da música que a media não encontra motivos para a expor nos seus canais (falo das TVs) porque o tempo da antena é caro.

Voltei aos spirituals que não eram exactamente das noites revolucionárias da capoeira ou do hip-hop das ruas novaiorquinas importados dos ritmos da jamaica.

Eram música de lamento e crença no poder divino para o descanso espiritual, pelo peso de tanto trabalho nas plantações de canas-de açucar. Será daí que evoluiu a tua música Seth?

Essa minha leitura pode ser influenciada pela tua ligação com a religião onde parece ser a base para a grande música. Podia correr para os coros que inspiraram os Boyz II Man, mas posso me prender – gosto desta – na Irinah ou mesmo na Lizha James dos tempos iniciais da sua carreira em que a voz era o seu principal instrumento de sedução. Lembras?

Alguns dos teus ídulos também não se escapam dessa influência religiosa, falo por exemplo de Arão Litsuri. A tua música me levou de volta a esse passado para compreender a evolução de algumas das nossas histórias.

Na sexta-feira fazes 34 anos e vais cantar para os teus amigos no Mbuva. Espero esse regresso, e acredito que na tua marrabenta, afrojazz e gospel teremos uma forma de fazer uma viagem pela world music, do nosso jeito.

E espero que depois trabalhes para produzires um disco e que ganhes mais indo ao palco que indo ao tribunal como advogado.

Hã... cuidado, se fores as compras ou se fores dar umas voltas pelas avenidas onde as mulheres estão dispostas a te amarem por uns minutos a troco de alguns valores podes ser o proximo bife.

Aquele abraço

PC


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Uma Noite com Maria Teresa Dzukuta

A maior covardia de um homem

é despertar o amor de uma mulher

sem ter a intenção de amá-la.

Bob Marley

Matola, 17 de Fevereiro de 2010

Querida amada,

O 14 de Fevereiro me deprime!

Me pedes a verdade como se eu a te pudesse dizer.

Podia deixar as horas correrem, te falar do pânico que se reinstala sempre que os telejornais recuperam as notícias de polícias assassinados. Não importam as causas, diria a minha mãe com o rosto espantado e as mãos na cabeça como se a temer pela sua própria segurança: “se matam polícias o que será de nós?”

Mas não é isso que te preocupa.

O Estado pode ser assassinado isso não te diz nada. Me olhas como se fosse eu culpado pela morte de Michael Jackson e me acusas de ter assassinado o teu estado emocional. Me perguntas sem nenhuma compaixão pelo desgaste físico e financeiro que passei na noite de 14 de Fevereiro. A tua única preocupação é saber onde estava, com quem a fazer o quê e como!

Sinto egoísmo da sua parte. É como se eu fosse tua propriedade privada, teu homem de estimação que as outras não podem tocar nem por um segundo.

Me desgosta o teu interrogatório. Não porque não o podes fazer, mas porque não te posso responder.

Te digo que fui aos copos com os meus novos amigos de infância e nos perdemos no tempo falando daquilo que podia ter sido a nossa história se tivéssemos nascido e crescido no mesmo bairro.

Me olhas com o mesmo desprezo de uma serpente desesperada. “Onde estiveste?”

Não te posso dizer! Como dizer?

Uso a arma dos fracos para poder me defender dos teus ataques fulminantes. Grito e exponho minha força física para me acobardar, e te lembro que estou cansado!

Me perdi na noite deste 14 de Fevereiro num bar da esquina onde Maria Teresa Dzukuta ao ritmo de cada copo de cerveja, pisca o olho para quem paga mais como nos concursos das operadoras celulares, nos quais que ganha quem mais mensagens enviar.

Lá, como diria Manuel Bandeira, mesmo não sendo Pasárgada, há muitas prostitutas bonitas para namorar. Deixam-se aos montes e fazem a mesma promoção de tomate no mercado. Prometem bassela e noite inesquecível.

Olha meu amor. Consegues imaginar como ficam os lábios prostitutos de Maria Teresa quando te promete uma noite inesquecível?

Me perdi nessa sensualidade selvagem e as minhas mãos soltaram-se para deslizarem nos meus bolsos e tirarem as notas enquanto gritavam em voz alta para todos me ouvirem dizer para Paito, servente do bar, “fique com os trocos”!

Maria Teresa dzukutava para mim, mesmo quando aparecia por engano uma música de Aretha-Franklin. É como se a sua existência existisse apenas de cintura para baixo. E é por ai onde também me fixava.

É verdade amor, fugi dos jantares a dois a luz de vela numa mesa onde o som chega de fininho, como se estivéssemos nos tempos em que devíamos ter medo que alguém se apercebesse que ouvíamos músicas revolucionárias.

Dizes que é romântico?

Romântico?!

É tedioso meu amor!

Por isso que os 14 de Fevereiro me deprimem.

Lá na Maria Teresa falamos em voz alta e soltamos palavrões sem nenhuma preocupação em sermos educados. Dançamos sem nos preocuparmos em acertar o passo, bebemos sem nos preocuparmos com a quantidade, fazemos amor sem nos preocuparmos com preliminares.

Somos nós mesmos, percebes meu amor?

Mas como te dizer isso?!

Me deixe ver telejornal.

Dois polícias são assassinados. Clic!

Bairros da Matola estão há meses sem água. Clic!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Esquecer Matola, ouvir T’Yana para Lembrar Samora e olhar Guebuza

Um homem que quer reger a orquestra

precisa dar as costas à plateia.

James Cook


Para Jorge Saiete, Lazaro Bamo

e o recém admitido ao

triste clube matolense

Júlio Mutisse


Desliguei-me da Matola que tanto amo.

Os jornais repetem as notícias do lixo e os residentes de Fomento saem a rua para reclamar a falta de limpeza “enquanto pagamos taxa de lixo”. O presidente do Município espreita para a capital e nos apazigua “se até Maputo tem lixo”. Clic!

Comemoravam-se 38 anos de Matola como cidade. Nessa noite as estrelas foram ofuscadas pelo fogo de artifício.

Viva Matola!

Esqueço Matola e seu lixo, sua falta de água, promessas não cumpridas de estradas e eternos seminários sobre plano de estrutura urbana!

Viva Matola!

Mas me esqueci da Matola, da revolta populacional e comentadores das TV’s que põem em causa a competência do seu presidente que sempre acreditou na “Matola Primeiro.” Clic!

Me esqueci!

Me tranquei no quarto e recuperei um disco de T’Yana exumado do baú das memórias para fazer um back ao passado de um povo que levantava o nariz e dizia aos governos racistas de Ian Smith e Pieter Botha que “somos pobres com orgulho”.

T’Yana nos leva de volta a um país que era liderado por um homem de causas, que preferiu trancar as suas fronteiras e punha o povo a cantar “Smith wa lhanya” algo como “Smith é louco”.

Eram os tempos que brincávamos djiplokotsos a Kapango na Escola Primária de T-3 e festejamos a distribuição de leite em pó nos intervalos depois de longas filas para vacinação. Nessa altura, na curiosidade de ver o Presidente nos juntamos nas machambas 16 de Junho pertencente a Cooperativa das Zonas Verdes para o ouvirmos gritar “Independência ou Morte, Venceremos!”

É neste contexto que aprece T’Yana inspirado no discurso de Samora Machel depois do comando boer, no dia 30 de Janeiro de 1981, ter invadido Moçambique para assassinar militantes do ANC.

O tom de desafio de Samora Machel e interpretação perfeita de Yana, é a demonstração de segurança de um país acabado de sair de uma luta pela independência frente a um exercito colonial violento, que não aceita dobrar-se perante uma potencia regional que era a África do Sul do Apartheid.

Que venham, estamos prontos para os receber com uma sandes de marreta, um copo de creolina, um rebuçado de pregos, um bolo de granada e para fazer digestão um coro de armas viradas para eles.

Esta é a forma como um país de terceiro mundo, considerado na altura, muito mais do que hoje, mais pobre do mundo.

Mais do que as consequências que o país passaria ou que passou, se olharmos para toda a sabotagem que o país viveu, o mais importante era passar para os nossos inimigos a mensagem de um país que não verga, um país que poeticamente se definiria “pobre mas orgulhoso”!

Hoje podemos encontrar o mesmo discurso em Armando Guebuza. É claro que já não se coloca o verso de “pobre orgulhoso” mas o de auto estima.

Os inimigos de hoje são outros, como o definiu Marcelino dos Santos num seminário organizado pela Coopal_ Jornalistas Culturais, onde Armando Guebuza era o principal orador, antes da sua eleição para o primeiro mandato.

Os inimigos são outros, dizia o libertador. Armando Guebuza olha para a pobreza absoluta que se pode vencer com trabalho e auto estima. Para Graça Machel, na abertura do ano lectivo d’A Politécnica, é importante que o moçambicano em qualquer parte do mundo se sinta moçambicano mas parte deste mundo.

Mas voltamos ao discurso combativo de Samora em Yana. Se Graça Machel hoje fala desse orgulho de ser moçambicano, podemos recuar para “Daqui Não Saio Daqui Ninguém Me Tira”.

Eu aqui nasci e é aqui que vou morrer.

Se alguém vier para me tirar eu não vou sai.

Nunca deixarei que alguém me roube esta terra.

Venha de onde vier, Independência ou Morte daqui não saio.

Mais uma vez encontra-se aqui no verso de T’Yana o tom desafiador samoriano. A ideia de terra que nos vê nascer e que suporta os nossos mortos. O discurso é típico do momento em que o país vivia e o Marechal precisava fazer acreditar ao seu povo que a defesa da pátria valia todo o nosso sangue. Foi assim que se ganhou a “liberdade” e é por amor a terra que hoje podemos nos entregar, diria Guebuza, no combate a corrupção e renovação de liberdades individuais se quisermos realmente combater a pobreza.

Podemos falar de unidade em as tuas dores mas as minhas dores vão estrangular a opressão. Penso que esta é das músicas mais significativas do professor Yana. A ideia da unidade para se atingir um bem comum. No entanto a unidade não pode significar todos nós estarmos a fazer a mesma coisa. É estarmos a contribuir a nossa maneira para um mesmo fim. Guebuza recupera essa ideia de unidade primeiro com indicação de 2009 como ano Eduardo Mondlane e depois no discurso da sua investidura onde fala de uma colaboração entre a geração 25 de Junho, a geração 8 de Março e a geração de Viragem.

Os teus olhos mais os meus olhos vão falando da revolta.

A tua cicatriz mais a minha cicatriz vão lembrando o chicote.

As minhas mãos mais as tuas mãos vão pegando em armas

A minha força mais a tua força vão vencer o imperialismo

O meu sangue mais o teu sangue vão regar a vitória.

É claro que não vencemos o imperialismo mas estamos a construir um país enquanto a nossa Matola assiste. Voltei a Matola porque acabou a música e dá para olhar que o seu presidente quer reger uma orquestra virado para o público. É por essa razão que está preocupado com os seminários para aparecer sempre em público através dos órgãos de informação.

Aquele abraço

PS: Não consigo fazer o upload da música aqui. Quem a quiser que me dê um toque por email.

PC