quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dos Bifes A Ditadura Da Media

"Se você não tem motivos para sorrir,

pelo menos não dê motivos

para os outros chorarem."

Anónimo


Matola, 14 de Abril

Uma canção para Seth Swaze

Pelo seu aniversário e

pelas músicas que nunca gravou

Mano, uma vez descansava o triste peso de um dia em que corremos atras do que não sabemos só para nos iludirmos que fazemos alguma coisa. De remoto na mão fui repetindo essa inaptidão a procura, nas nossas TV’s, de qualquer coisa que pudesse assistir. Sabes Seth, há horas que nos apetece partir o televisor por não nos estar a servir para nada. Mas esse dia fui me prender na 21ª hora, e Fernando Lima sugeria para ler “A Ditadura da Media”.

Me admira o poder disciplinador da media do mesmo jeito que me assusta a forma de interferir nas nossas vidas. Uma espécie de invasores impiedosos que se dão ao luxo de determinarem o que temos de fazer, onde devemos comprar e o quê comprar. Pior, a quem amar!

A media venceu. A Televisão tomou de assalto o papel previligiado dos pais e passou a ser o educador destes e dos seus filhos. Já te apercebeste do silencio que os pai impõe ao filho na hora do telejornal e aquele que a mãe sujeita quando passa uma telenovela?

Te dizia mano que a media venceu e determina onde comprar as coisas. Rui Michel foi a última vítima dos bifes por ter feito compras no Xipamanine. Va ka hina, por se ser músico não se pode fazer compras no Xipamanine?

O que mais intriga é concentração das pessoas para ver “daqui a pouco”essa grande matéria. E ainda me vem dizer que o tempo de antena na TV é caro. Façam-me rir.

Mas te queria falar de música mano.

Parti dos breves minutos da tua música ontem para recuar no tempo em que com Zé Manuel – onde anda esse companheiro? – fizeram uma parelha e percorreram um jazz todo gospelizado cheio de marrabenta que alertava “deixem os pintos crescerem”. Queria voltar para o poder da música que a media não encontra motivos para a expor nos seus canais (falo das TVs) porque o tempo da antena é caro.

Voltei aos spirituals que não eram exactamente das noites revolucionárias da capoeira ou do hip-hop das ruas novaiorquinas importados dos ritmos da jamaica.

Eram música de lamento e crença no poder divino para o descanso espiritual, pelo peso de tanto trabalho nas plantações de canas-de açucar. Será daí que evoluiu a tua música Seth?

Essa minha leitura pode ser influenciada pela tua ligação com a religião onde parece ser a base para a grande música. Podia correr para os coros que inspiraram os Boyz II Man, mas posso me prender – gosto desta – na Irinah ou mesmo na Lizha James dos tempos iniciais da sua carreira em que a voz era o seu principal instrumento de sedução. Lembras?

Alguns dos teus ídulos também não se escapam dessa influência religiosa, falo por exemplo de Arão Litsuri. A tua música me levou de volta a esse passado para compreender a evolução de algumas das nossas histórias.

Na sexta-feira fazes 34 anos e vais cantar para os teus amigos no Mbuva. Espero esse regresso, e acredito que na tua marrabenta, afrojazz e gospel teremos uma forma de fazer uma viagem pela world music, do nosso jeito.

E espero que depois trabalhes para produzires um disco e que ganhes mais indo ao palco que indo ao tribunal como advogado.

Hã... cuidado, se fores as compras ou se fores dar umas voltas pelas avenidas onde as mulheres estão dispostas a te amarem por uns minutos a troco de alguns valores podes ser o proximo bife.

Aquele abraço

PC


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