quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Uma Noite com Maria Teresa Dzukuta

A maior covardia de um homem

é despertar o amor de uma mulher

sem ter a intenção de amá-la.

Bob Marley

Matola, 17 de Fevereiro de 2010

Querida amada,

O 14 de Fevereiro me deprime!

Me pedes a verdade como se eu a te pudesse dizer.

Podia deixar as horas correrem, te falar do pânico que se reinstala sempre que os telejornais recuperam as notícias de polícias assassinados. Não importam as causas, diria a minha mãe com o rosto espantado e as mãos na cabeça como se a temer pela sua própria segurança: “se matam polícias o que será de nós?”

Mas não é isso que te preocupa.

O Estado pode ser assassinado isso não te diz nada. Me olhas como se fosse eu culpado pela morte de Michael Jackson e me acusas de ter assassinado o teu estado emocional. Me perguntas sem nenhuma compaixão pelo desgaste físico e financeiro que passei na noite de 14 de Fevereiro. A tua única preocupação é saber onde estava, com quem a fazer o quê e como!

Sinto egoísmo da sua parte. É como se eu fosse tua propriedade privada, teu homem de estimação que as outras não podem tocar nem por um segundo.

Me desgosta o teu interrogatório. Não porque não o podes fazer, mas porque não te posso responder.

Te digo que fui aos copos com os meus novos amigos de infância e nos perdemos no tempo falando daquilo que podia ter sido a nossa história se tivéssemos nascido e crescido no mesmo bairro.

Me olhas com o mesmo desprezo de uma serpente desesperada. “Onde estiveste?”

Não te posso dizer! Como dizer?

Uso a arma dos fracos para poder me defender dos teus ataques fulminantes. Grito e exponho minha força física para me acobardar, e te lembro que estou cansado!

Me perdi na noite deste 14 de Fevereiro num bar da esquina onde Maria Teresa Dzukuta ao ritmo de cada copo de cerveja, pisca o olho para quem paga mais como nos concursos das operadoras celulares, nos quais que ganha quem mais mensagens enviar.

Lá, como diria Manuel Bandeira, mesmo não sendo Pasárgada, há muitas prostitutas bonitas para namorar. Deixam-se aos montes e fazem a mesma promoção de tomate no mercado. Prometem bassela e noite inesquecível.

Olha meu amor. Consegues imaginar como ficam os lábios prostitutos de Maria Teresa quando te promete uma noite inesquecível?

Me perdi nessa sensualidade selvagem e as minhas mãos soltaram-se para deslizarem nos meus bolsos e tirarem as notas enquanto gritavam em voz alta para todos me ouvirem dizer para Paito, servente do bar, “fique com os trocos”!

Maria Teresa dzukutava para mim, mesmo quando aparecia por engano uma música de Aretha-Franklin. É como se a sua existência existisse apenas de cintura para baixo. E é por ai onde também me fixava.

É verdade amor, fugi dos jantares a dois a luz de vela numa mesa onde o som chega de fininho, como se estivéssemos nos tempos em que devíamos ter medo que alguém se apercebesse que ouvíamos músicas revolucionárias.

Dizes que é romântico?

Romântico?!

É tedioso meu amor!

Por isso que os 14 de Fevereiro me deprimem.

Lá na Maria Teresa falamos em voz alta e soltamos palavrões sem nenhuma preocupação em sermos educados. Dançamos sem nos preocuparmos em acertar o passo, bebemos sem nos preocuparmos com a quantidade, fazemos amor sem nos preocuparmos com preliminares.

Somos nós mesmos, percebes meu amor?

Mas como te dizer isso?!

Me deixe ver telejornal.

Dois polícias são assassinados. Clic!

Bairros da Matola estão há meses sem água. Clic!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Esquecer Matola, ouvir T’Yana para Lembrar Samora e olhar Guebuza

Um homem que quer reger a orquestra

precisa dar as costas à plateia.

James Cook


Para Jorge Saiete, Lazaro Bamo

e o recém admitido ao

triste clube matolense

Júlio Mutisse


Desliguei-me da Matola que tanto amo.

Os jornais repetem as notícias do lixo e os residentes de Fomento saem a rua para reclamar a falta de limpeza “enquanto pagamos taxa de lixo”. O presidente do Município espreita para a capital e nos apazigua “se até Maputo tem lixo”. Clic!

Comemoravam-se 38 anos de Matola como cidade. Nessa noite as estrelas foram ofuscadas pelo fogo de artifício.

Viva Matola!

Esqueço Matola e seu lixo, sua falta de água, promessas não cumpridas de estradas e eternos seminários sobre plano de estrutura urbana!

Viva Matola!

Mas me esqueci da Matola, da revolta populacional e comentadores das TV’s que põem em causa a competência do seu presidente que sempre acreditou na “Matola Primeiro.” Clic!

Me esqueci!

Me tranquei no quarto e recuperei um disco de T’Yana exumado do baú das memórias para fazer um back ao passado de um povo que levantava o nariz e dizia aos governos racistas de Ian Smith e Pieter Botha que “somos pobres com orgulho”.

T’Yana nos leva de volta a um país que era liderado por um homem de causas, que preferiu trancar as suas fronteiras e punha o povo a cantar “Smith wa lhanya” algo como “Smith é louco”.

Eram os tempos que brincávamos djiplokotsos a Kapango na Escola Primária de T-3 e festejamos a distribuição de leite em pó nos intervalos depois de longas filas para vacinação. Nessa altura, na curiosidade de ver o Presidente nos juntamos nas machambas 16 de Junho pertencente a Cooperativa das Zonas Verdes para o ouvirmos gritar “Independência ou Morte, Venceremos!”

É neste contexto que aprece T’Yana inspirado no discurso de Samora Machel depois do comando boer, no dia 30 de Janeiro de 1981, ter invadido Moçambique para assassinar militantes do ANC.

O tom de desafio de Samora Machel e interpretação perfeita de Yana, é a demonstração de segurança de um país acabado de sair de uma luta pela independência frente a um exercito colonial violento, que não aceita dobrar-se perante uma potencia regional que era a África do Sul do Apartheid.

Que venham, estamos prontos para os receber com uma sandes de marreta, um copo de creolina, um rebuçado de pregos, um bolo de granada e para fazer digestão um coro de armas viradas para eles.

Esta é a forma como um país de terceiro mundo, considerado na altura, muito mais do que hoje, mais pobre do mundo.

Mais do que as consequências que o país passaria ou que passou, se olharmos para toda a sabotagem que o país viveu, o mais importante era passar para os nossos inimigos a mensagem de um país que não verga, um país que poeticamente se definiria “pobre mas orgulhoso”!

Hoje podemos encontrar o mesmo discurso em Armando Guebuza. É claro que já não se coloca o verso de “pobre orgulhoso” mas o de auto estima.

Os inimigos de hoje são outros, como o definiu Marcelino dos Santos num seminário organizado pela Coopal_ Jornalistas Culturais, onde Armando Guebuza era o principal orador, antes da sua eleição para o primeiro mandato.

Os inimigos são outros, dizia o libertador. Armando Guebuza olha para a pobreza absoluta que se pode vencer com trabalho e auto estima. Para Graça Machel, na abertura do ano lectivo d’A Politécnica, é importante que o moçambicano em qualquer parte do mundo se sinta moçambicano mas parte deste mundo.

Mas voltamos ao discurso combativo de Samora em Yana. Se Graça Machel hoje fala desse orgulho de ser moçambicano, podemos recuar para “Daqui Não Saio Daqui Ninguém Me Tira”.

Eu aqui nasci e é aqui que vou morrer.

Se alguém vier para me tirar eu não vou sai.

Nunca deixarei que alguém me roube esta terra.

Venha de onde vier, Independência ou Morte daqui não saio.

Mais uma vez encontra-se aqui no verso de T’Yana o tom desafiador samoriano. A ideia de terra que nos vê nascer e que suporta os nossos mortos. O discurso é típico do momento em que o país vivia e o Marechal precisava fazer acreditar ao seu povo que a defesa da pátria valia todo o nosso sangue. Foi assim que se ganhou a “liberdade” e é por amor a terra que hoje podemos nos entregar, diria Guebuza, no combate a corrupção e renovação de liberdades individuais se quisermos realmente combater a pobreza.

Podemos falar de unidade em as tuas dores mas as minhas dores vão estrangular a opressão. Penso que esta é das músicas mais significativas do professor Yana. A ideia da unidade para se atingir um bem comum. No entanto a unidade não pode significar todos nós estarmos a fazer a mesma coisa. É estarmos a contribuir a nossa maneira para um mesmo fim. Guebuza recupera essa ideia de unidade primeiro com indicação de 2009 como ano Eduardo Mondlane e depois no discurso da sua investidura onde fala de uma colaboração entre a geração 25 de Junho, a geração 8 de Março e a geração de Viragem.

Os teus olhos mais os meus olhos vão falando da revolta.

A tua cicatriz mais a minha cicatriz vão lembrando o chicote.

As minhas mãos mais as tuas mãos vão pegando em armas

A minha força mais a tua força vão vencer o imperialismo

O meu sangue mais o teu sangue vão regar a vitória.

É claro que não vencemos o imperialismo mas estamos a construir um país enquanto a nossa Matola assiste. Voltei a Matola porque acabou a música e dá para olhar que o seu presidente quer reger uma orquestra virado para o público. É por essa razão que está preocupado com os seminários para aparecer sempre em público através dos órgãos de informação.

Aquele abraço

PS: Não consigo fazer o upload da música aqui. Quem a quiser que me dê um toque por email.

PC

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Morte de Jeremias e Fim Da Crítica

Difícil não é lutar por aquilo que se quer, mas sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer!

Bob Marley

A Rosa Langa

Por todas as inconfidências

e tudo que nos rimos e sonhamos.

Querida Rosa Langa,

O ano começou e ainda não tivemos tempo para falarmos sobre os teus grandes projectos. Espero que esta carta te encontre em tua melhor forma, como uma verdadeira 4X4.

Falando de projecto “nha” Rosa, na terça-feira com a corrida pela tomada de posse dos deputados provinciais fiquei preso a notícias de todos os cantos e me esqueci de te escrever. Por todas as razões tinha de ser para ti a minha primeira carta deste ano.

Sabes maninha, ando desesperado a procura de algo que me surpreende. Quando oiço o General Líder Mais Bonito e Jovem Dhlakama a falar, por causa daquela sua “determinação” herdada nos longos anos da luta, espero sempre para ver o que realmente irá acontecer. Tu me conheces “nha” Rosa e sabes que a violência não é minha praia. Mas acredite que eu gosto do discurso do general e me ponho sempre na expectativa para ver qual será o final da novela que ele escreveu.

Foi, acredite mana, num misto de alegria e pena que vi os deputados da Renamo todos elegantados nos seus fatos para tomarem posse. Era como se assumissem um ar de desafio a liderança do General. É como se o tigre tivesse perdido toda as suas garras e se valesse apenas da pele para amedrontar as crianças.

As “más línguas” (?) dizem também que os próprios deputados eleitos para a Assembleia da República vão desobedecer o líder, não por causa do seu compromisso com a pátria, em particular os seus eleitores, mas pelos 40 mil de meticais que os esperam naquela casa do povo. É coisa para se dizer isso mana?

Eu prefiro acreditar que o farão por um dever patriótico. Mas se tu, minha querida irmã, pudesses, ao teu jeito, fazias uma edição das Inconfidências de Dhlakama, quem sabe se ele não nos diria o que realmente vai na sua alma.

Querida Rosa, sei que estas coisas de política te deixam mal disposta.

Não é tua praia!

Por isso que vou parar apesar de não me faltar a vontade de te falar da entrevista de Daviz Simango ontem, principalmente quando faz um recuo a história da Frelimo até a morte do seu pai. É interessante ver como ele bebeu dos camaradas, me pareceu guardar tumularmente um segredo, uma espécie de pacto de sangue dizendo simplesmente que “alguém vai contar”.

Bom, maninha, sei que me dirias simplesmente que isso é com eles. Sei como foges dessas coisas. Precisas apenas de curtir uma boa música, pegar tua muchila e descobrir sítios onde há gente que acredita que Samora ainda é presidente de Moçambique, onde quem tem uma bicicleta para ir a Malawi comprar açúcar para vir vender em kwacha porque nunca pegaram metical.

Olha “nha” Rosa, pensei em te escrever esta carta na madrugada de dia 2 de Janeiro, na ressaca de “ano novo”. Sabes companheira, naquelas horas que nos achamos ricos, tiramos cadeiras e nos deixamos estar no meio de uma das ruas do meu T-3. Um dos meus amigos estacionou seu carro, abriu as portas e ligou, qual poderoso, num bom volume para que todos ouvíssemos a forte voz de Jeremias Ngwenha.

Mana, não te posso jurar que estava lúcido, não havia condições morais para minha lucidez naquela hora, mas eu podia ouvir de verdade Jeremias Ngwenha. Acordei estes dias todos lembrando os seus temas e os repetia mentalmente para que não me esquecesse do quanto não paramos para pensar nisso.

Penso que Amosse Macamo (como vai mano?), um especialista em música moçambicana ainda não se deu tempo para olhar para a morte de Jeremias como o fim da crítica na música. Sei que é exagerado chamar a isto de fim mana Rosa, e que o justo seria o silêncio.

Os rappers, mais pela origem do próprio estilo em que os Ganster Rap se evidencia como um ritmo de pretexto, onde a letra é mais importante que toda a componente da música, se esquiva desse papel.

O rap moçambicano me parece estar mais talhado ao que se considera “música de revista”, mais ao estilo dos jornais que vão relatando “o povo está com fome e saiu a rua”, e quando quer pegar pesado vira-se contra um dos seus companheiros.

Na segunda-feira fiquei a olhar para TVM passando uma série de música Rap e chamou-me atenção YoYo, primeiro pelo título da música “Mesmo Bandido”. Depois era a letra onde assume “sou gangster armado” e manda recados fortes a Danny OG.

Esta é uma faceta do Rap, mas acho que rhythm and poetry do nosso país pode ser muito mais explorado como já o fizeram bem os G-Pro em “País da Marabenta”.

Voltando a Jeremias Ngwenha, mana, o que gostava dele é a capacidade de fugir desse estilo de revista é nos oferecer coisas que vivemos nos nossos dias como se fosse uma descoberta sua. Te lembras de “vada voche”? – penso que é assim que se escreve. Ele abandona o estilo clássico de poesia que, curiosamente encontramos no Rap, falo de versos em rimas, e assume o lado “vadio” para nos alertar que há gente que se esquece que nós existimos.

Jeremias não era adorado pelos seus “olhos azuis”, mas por uma mistura de espectáculo, música e letras que cada um que subia “chapa la ni kakaulhula” sentia na pele o que é estar numa bicha que não anda.

Percebes o que estou a tentar dizer “nha” Rosa?

Estou a falar de letras não muito eruditas ao estilo de “povo no poder”, mas sim de uma “surpresa” que Jeremias apanha em “Kase Ka Maputso ku ta”? Algo como “afinal Maputo é assim?” e ele começa a descrever os dissabores e o fim de sonho que atinge todos que olham para Capital como a terra onde tudo acontece.

“Nha”Rosa, o ano ainda está a começar e sei que vamos ainda nos encontrarmos para um mousse de chocolate.

Até lá maninha, espero que a segunda edição do teu livro Moçambique, Mulheres e Vida volte a esgotar como a primeira.

Um beijo, sem nenhuma inconfidência.

PC

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Poema que Não te Escrevi (Feliz 2010)

Matola, 18 de Dezembro de 2009

Companheiros,

Estamos em Dezembro. Corremos. Corremos por causa do trabalho, corremos pelas festas, corremos pela vida, corremos pela família. A verdade é que corremos. E corremos muito. Nessa longa correria só não devemos nos esquecer de dizer aos nossos amigos o quanto os estimamos, o quanto os queremos bem e o quão bem queremos que passem as festas. Eu não podia esquecer. Eis me aqui vos desejando tudo isso, MUITO DINHEIRO e juízo.

2009 se vai, 2010 vem ai e já que se discute aquecimento global, deixo vos com o o Poema que não vos escrevi em 2009 (também já publicado aqui).

O Poema Que Não te Escrevi


Acredito que o amor é eterno!

Terei todo o tempo do mundo para te escrever um poema de amor.

Este é o poema que não te escrevi. Não tenho tempo para te falar das flores e da água do mar. O mundo está em chamas e nós marchamos nas avenidas universais apelando pela paz.

Formamos movimentos anti-globalização ou pela globalização cooperativa em que não só consumimos macdonald como também oferecemos xigubo. E de bandeiras em punho seguimos na frente de combate apelando para o fim da guerra e para redistribuição da riqueza por partes iguais. Somos guerreiros modernos que ainda acreditam que o movimento cívico é das armas mais letais.

Não tenho tempo para te escrever um poema meu amor!

Acreditava que a nossa causa era justa, que iríamos vencer para oferecermos um mundo melhor aos nossos filhos. Aí, todas as noites antes de dormirmos faríamos amor e te recitaria poemas ao amanhecer sem medo e sem ver nas televisões noticiários de guerra, sem me envergonhar pelas tristes imagens de Darfur. Dizias-me que essa era utopia de homens modernos que não aceitam ser comunistas mas continuam a perseguir o sonho vermelho em shows de Bono Vox e Bob Geldof. Pode ser meu amor, mas a minha ideologia é um comunismo capitalista!

O show vai acabar meu amor, aí iremos a beira-mar ver o pôr-do-sol e te escrever um poema de amor.

Agora não tenho tempo para te escrever esse poema!

Agora tenho de escrever meu manifesto para a Nina. Ela não entende poemas de amor, ela não entende linguagem de paz e amor enquanto vê uma imagem chocante de G-8 em volta a uma mesa farta em que os líderes não comem por não saberem o que comerem enquanto de outro lado, no vale de Níger onde se sente o rico cheiro de petróleo há muita gente que não come por não ter o que comer.

Agora não posso te escrever um poema de amor!

Tenho de falar dos homens sem tecto que sonharam com um país melhor e o máximo que conseguiram foi uma bala no seu corpo e um despachado caixão de seus companheiros de luta enterrado debaixo da terra como tecto.

Achas que me resta tempo para te escrever um poema de amor?

Quando o mundo for melhor, te escreverei um poema de amor. Falarei do seu corpo a escaldar enquanto te contorces de prazer, qual sol sobre África em tempo de aquecimento global.

Vês meu amor, agora só sei falar de aquecimento global, só sei falar do protocolo de Quioto, só sei falar de questões ambientais que vão dando cabo deste continente, da água que será a principal causa da guerra.

O poema que não te escrevi, fala das crianças a correrem no meu país sem medo de bombas sem temerem a diplomacia de guerra. O poema que não te escrevi fala dos teus olhos a brilharem por não teres a preocupação do que comer amanhã.

Poema que não te escrevi é um poema de paz e amor!


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

História da Vida Privada

As vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas... O tempo

passa... e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas

pequenas demais para torná-los reais!

Bob Marley

Ao velho General

Matola, 4 de Novembro de 2009

Meu velho general,

Desta minha Matola onde Basílio Muhate e Milton Machel, sem compreenderem como nós os dois que é bom criar trincheiras, dizem que fico a me fantasmagorizar, te escrevo esta carta de quem nunca percebeu para quê servem as armas, muito menos as guerras.

Mas há tanta coisa que eu não percebo meu general. Por exemplo como é que não consegues compreender que o jogo acabou mesmo depois do apito final.

Quando falo do jogo me recordo de uma entrevista que deste na TVM, há anos para o programa “Estamos Juntos”, penso que era esse, de Emílio Manhique onde falavas do teu amor pelo futebol e que não gostavas por nada de perder.

Me disseram que também és do Ferroviário, General. Penso que agora que mudaste a capital para Nampula dificilmente irás ao Estádio da Machava. Eu também não iria General, aliás, também não vou apesar do Estádio estar no quintal da minha casa.

Mas o senhor tem outras razões para não se dirigir a Machava. Não se pode trocar Nampula pela Machava.

Olha General, eu percebo a tua vontade de mudar a capital para Nampula. Eu também se tivesse o mesmo poder que o senhor o faria. Não quero acreditar que seja por razões políticas. Há coisas mais importante que política. A minha amiga Ani, romântica como ela sempre foi diria mesmo que há coisas mais importantes que política e dinheiro e nós os dois sabemos o que é.

Se meu amigo Egídio Vaz, um ilustre bicho político, viesse me dizer que a política está em tudo, ficaríamos logo com a certeza que ele nunca foi a Nampula com espírito de um verdadeiro cavalheiro.

Em Nampula aprende-se a saborear com os olhos o mais puro da beleza sensual. É só te pendurares num dos postes das velhas ruínas da Ilha de Moçambique para te deliciares com a sensualidade da dança de um feminino corpo macua, como as senhoras do grupo Estrela Vermelha. Sabe general que sempre que olho para aquelas mulheres dançar com toda aquela levaza chego a pensar que elas controlam o tempo?

Sim, lá se controla o tempo. Pelo menos elas controlam o tempo, elas ditam as regras e tu te apaixonas, soltas o verbo e pensas que caçaste quando não passas de uma presa.

Penso que um homem honesto e de uma boa família, isto só para não dizer bem-educado, não pode ir a Nampula casado. Em Nampula não se vai casado casa-se lá.

Voltando aquela entrevista, General, eu percebo hoje o porquê da promessa de pôr o país a “arder chama”.

Mas no lugar de olhar para o que os outros fizeram para que o senhor não ganhasse estas eleições, porquê não prestar atenção àquilo que o General fez para perder.

Penso General que o senhor não se apercebeu que uma luta política não se ganha com as mesmas estratégias de guerrilha. Penso que se esqueceu de se desmobilizar. Se esqueceu da famosa frase de “um homem válido na guerra é inválido na paz.”

O senhor conseguiu manter-se líder. Mas faltou dar sustento a essa figura de “líder” que sempre ostentou.

Repetiu a ideia de ser mais jovem e mais bonito como se eleições fossem concursos de beleza e porte físico.

Nos 45 dias de campanha eleitoral, meu General, o senhor fez um clássico passeio pela zona norte, só para não dizer Nampula, deixando poucas horas para sul. A sua explicação na entrevista da RDP – África foi de que sul representa 22% da capacidade eleitoral.

General, nunca ouviu os economistas dizerem “cuidado com os pequenos furos porque fazem grandes rombos”?

Não General, acho que a sua estratégia, pode até ter sido boa em termos militares mas politicamente não funciona. Não funcionou General!

A prova disso são os discursos agressivos que o senhor faz e os seus acólitos, Banrarano e Ivone Soares fazem eco.

Mas como o senhor mesmo diz, esses são miúdos. Me preocupa mais o que o senhor como líder diz.

Repetiu várias vezes que era pai da Democracia. Não se preocupou por essa menina “Democracia” nascesse de uma mãe incógnita. Teve todas as oportunidades para a abortar mas preferiu deixa-la crescer para a assassinar agora.

É general, vê que isso não faz sentido?

O senhor diz que ainda tem idade para se candidatar. Acredita que um dia será Presidente desta República como o foi Lula da Silva. Para mim o General está mais próximo Jean-Marie Le Pen.

Sei que não tenho direito de me meter na vida do seu partido, mas acho que é hora exacta para sair de mansinho e irmos sentar na nossa nova capital apreciar o que de mais belo há lá.

Aquele abraço

PC Mapengo

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Auxilio Incompreendido

Socorro, alguma alma, mesmo que penada

Me empreste suas penas.

Já não sinto amor nem dor

Já não sinto nada.

Socorro, alguém me dê um coração.

Que esse já não bate nem apanha.

Por favor, uma emoção pequena,

Qualquer coisa que se sinta,

Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.

In CD “UM SOM” de Arnaldo Antunes

Ao marido da minha amante

Querido sócio, desta Matola onde construo meus sonhos, te escrevo para mostrar a minha indignação. O meu país está a atravessar um ímpar momento de campanha eleitoral. Falo de escolhas, sócio.

Eu não queria voltar ao assunto político neste meu canto a moda antiga. Sabes sócio que há uma onda de alianças dos excluídos com os candidatos não desqualificados e, logo, sérios (alguns hão de ser, de certeza)? É engraçado olhar para este cenário. E eu já me questionei sobre posições políticas dos nossos partidos.

Diga meu companheiro, podemos falar de esquerda direita ou partidos de centro no nosso cenário político? O que é que o PIMO ou os Ecologistas têm a ver com a FRELIMO? O que é que os que declararam apoio ao MDM têm a ver com este movimento? Fiz me, também, esta pergunta numa outra vertente como “o quê é que a União Democrática acrescentou a Renamo?”

Pelo menos sei que a Renamo deu a muitos dos líderes desses partidos oportunidade de se sentarem nos bancos do parlamento.

Mas não é contigo que me interessa discutir política.

Te escrevo para expressar a minha indignação pela forma como olhaste para o meu esforço cristão de ajudar o próximo, neste caso a tua linda mulher.

Chegaste companheiro, faiscando de ódio pelos versos mentirosos e maliciosos que ouviste pelos becos da tua vizinhança, e te atiraste sobre a minha fragilidade com a raiva de fera.

Não me deste oportunidade de me explicar. Era para ti o rosto hitleriano de uma guerra que ainda estava para começar. Estendi-me sobre o asfalto perante olhares sorridentes desses vizinhos que nunca compreenderam a minha relação altruísta para com a tua linda mulher.

Juro-te que só queria ajudar.

Sacrifiquei o tempo que devia, apaixonadamente, dedicar a minha mulher e as duas esbeltas namoradas, para poder tratar da tua mulher solitária e abandonada nas noites de Inverno que, durante dois anos a deixaste nos lençóis do teu quarto vazio.

Compreendes agora companheiro?

A minha missão foi cuidar do teu património enquanto te distanciavas por essas belas terras de rand onde se diz que a riqueza se tira debaixo do solo. É verdade? Nós cá corremos contra a pobreza e desejamos que o nosso solo deixe de servir simplesmente para enterrarmos os nossos mortos.

Bom, mas isso é uma outra história.

Olhe sócio. Mesmo depois de ter jurado nunca mais te voltar a dirigir a palavra, cedi a coação jeitosa da tua bela esposa para te pedir desculpa. Por mim, ficava neste silêncio sarcófago e, já que estás de volta a terra do rand, também abandonaria a tua mulher na solidão a que vivia antes, a ver se aprendias a agradecer os gestos generosos dos outros homens.

Mas como te disse antes, pela minha educação cristã, não gosto ver uma mulher a sofrer sem poder a ajudar. E isso companheiro, a tua paixão cega não permitiu observar.

Dizia meu sábio avô que uma casa tem que ter um homem por perto. Penso que tu nunca tiveste essa lição senão não abandonarias a tua bela dama em busca de uma fortuna nas terras dos outros.

Eu percebo essa necessidade de riqueza e queria que continuasses nessa busca com a certeza de que a tua casa está em boas mãos. Sempre esteve e tu não percebeste durante a semana que estiveste cá.

A tua fúria que se traduziu em socos violentos e repetidos insultos não te permitiram que te apercebesses do meu trabalho ao longo da tua ausência.

Soltaste verbos insultuosos e mesquinhos só para não agradeceres por ter ficado a matar cobra na tua casa. E nem te apercebeste que te ajudei a fazer um filho que não conseguias havia 6 anos depois do teu casamento.

Eu percebo a ingratidão.

Por tudo que partilhamos, aquele abraço.

PC Mapengo

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Comentador das Bananas: Virgílio Sithole Responde a Mapengo

Sobre o “Comentador das Bananas”

Virgílio Sitole
Jiamusi Universty - JU
Heilong Jiang Province
Republica Popular da China

Meu caríssimo irmão PC Mapengo, para mim Poly

Devo lhe confessar que me perdi no tempo e no espaço no que diz respeito às formalidades, quando se trata de escrever cartas, pior ainda, se tratando de “cartas a moda antiga”. Meu companheiro de longas jornadas, amigo, irmão, e se me permite, e todos os leitores do seu “cartas a moda antiga”, meu “Amor”. Os mal-intencionados poderão questionar esta costela que temos de “nos amar”, mas podem ficar tranquilos, somos homens que temos uma empatia e admiração um com o outro.

Meu irmão, confesso-lhe que mando este comentário hoje dia da “PAZ” na nossa Pérola do Indico, e deste pais mais populoso do mundo, onde me encontro a perseguir o “feitiço”, completo um mês me mordendo a língua todos os dias a tentar aprender o mandarim, esta língua difícil, mas não impossível, numa cidade que a temperatura chega a atingir – 30º C, onde os residentes se acotovelam para ter “um dedo de conversa” com um negro, alias, preto, -será que há diferença!!??, – que chatice meu até dá vontade de lhes… nikuxi pha…onde os escarros inundam tudo o que é rua, corredor, esquina…. Enfim, é nesta “esquina” do mundo que recebo sua carta intitulada “comentador das bananas”.

Meu irmão, feliz ou infelizmente, depende das circunstâncias e dos interesses, não pude acompanhar o debate/comentários na espectaculosa, mas tenho uma e única fonte, que é a sua carta, e vou tentar comentar/opinar, segundo o que me é oferecido e também socorrendo me dos conhecimentos que tenho do “comentarista mais procurado do momento” e das suas bananas…

Meu irmão, devo-lhe dar os meus parabéns por teres exercido o seu direito de cidadania e “irromper” no catalogado do “tudo óbvio, real e mais pura verdade da nossa Santa (?) Pátria Amada e difundido nos meios de comunicação social como a certeza divina ”.

Meu caro irmão, tenho respeito com todos seres humanos e desumanos, mas lhe confesso que antes de partir, discuti com os meus botões e a minha “caixinha mágica” num desses programas/comentários que são vivamente publicitados nas TVs. Sabes meu irmão, cheguei a conclusão, tinha que concluir, que alguns comentadores/analistas deviam ir a reforma ou darem umas voltas na “calibragem cerebral” pois, de tanto esforço que fazem para difundirem as suas filosofias e crenças, colocando-se como os donos da verdade e do saber, acabam por te levar a analogiar seus comportamentos e imbecilidades dogmáticas com a arte de coreografar numa visão contemporânea.

Irmão, imagina o que pensam os moçambicanos menos atentos e/ou sem capacidades para lerem nas entrelinhas, os discursos e “análises retrógradas” e embrulhadas em senso comum de alguns analistas/comentadores, só porque vão buscar os melhores (?) vocábulos de Camões e Pessoa para atingirem os fins sem olharem para os meios. Qual período da Segunda Guerra Mundial, onde os meios de comunicação tinham como preocupação dominante a determinação dos efeitos da propaganda centrando o tipo de efeito nas atitudes, nos valores e nos comportamentos dos destinatários.

Olhando em ultima instância, esta azáfama das eleições, campanhas versos promessas e desorganização na luta desenfreada da procura do pão de forma mais fácil, leva os politiqueiros a “escolherem o CC e a CNE como seus dois batuques para fazerem os seus ritmos de vitima” o que me faz me lembrar da estoria do macaco que acusa o “palco” de estar torto, mas na verdade ele é que é coxo, não sabe dançar.

Irmão, isto é bem diferente da coreografia da dança contemporânea. Na coreografia da dança contemporânea estão em jogo muitos factores, tais como, a ruptura com os padrões estéticos anteriores, onde o corpo e a mente experimentam novos condimentos técnicos e situacionais do espaço antes não vividas. Por outro lado, na coreografia contemporânea a criação e a tenacidade coreográfica não se centra num único elemento, o solista, mas sim em outros elementos com por exemplo, o movimento e a organização.

Aqui diferencia-se o movimento do gesto, apesar de aparentemente estarem juntos, têm proveniências diferentes. Como diz WOSIEN (2000) “O movimento é o resultado do esforço mecânico do corpo para se deslocar no espaço, de forma organizada, enquanto o gesto traz a carga expressiva, a identidade sócio – psíquica de cada um: sua mitologia corporal”. O que se pode concluir “que não há um movimento expressivo idêntico ao outro”.

A organização que faltou e ainda falta a muitos politiqueiros, na dança contemporânea está lá bem patente. E isso pode confirmar meu caro irmão. Mentira!!!!!!?????

Caro irmão, a dança como arte, seja qual for seu estilo, traz ao público além de lazer, uma nova forma de ver a vida, o mundo real e o mundo irreal, traz ao espectador o que as palavras não são capazes de dizer e o que somos capazes de sentir. A dança em si tem o poder de criar um mundo diferente na mente de cada espectador, e este mundo é capaz de gerar novas informações e conhecimentos para uma vida.

E como diz Miriam Lamas Baiak (2007) “não importa qual o estilo, se ela está na escola, na rua ou no teatro, a DANÇA faz parte de nossas vidas, e se prestarmos um pouco mais de atenção nela e nos seus profissionais, veremos que sua contribuição saí de dentro das paredes de uma sala de aula – da mente - e ultrapassa as linhas de um palco, levando para a sociedade uma contribuição infinita e de grande valor”.

Mas desmistificando a sua carta vejo que da “moda antiga”, talvez se encontra lá o formato, mas tem tudo de actual. Estás de parabéns por seres inimigo das verdades simples e convidares a sociedade a olhar nas entrelinhas e a questionar tudo o que lhe é apresentado pelos nossos comentadores, e não só, nas espectaculosas e as nossas Tvs.

Para terminar, ainda bem que não tens a certezas do que se nos e dados pelos órgãos de comunicação social, como jornalista que és, como sempre defendeste, já partes na luta pela imparcialidade, e já agora, permita me que lhe diga que o grande problema deste mundo – quiçá da nossa Pátria Amada – são os ignorantes e fanáticos com as suas certezas (in: Combates pela mentalidade sociológica, Serra, C. 2003).

Há comentadores que já “cederam à temperatura e amoleceram”, como acontece com as bananas, e é altura de estarem no “caixote do lixo” ou na geladeira para refrescarem os miolos e voltarem no “próximo mandato” quando surgir a outra espectaculosa já que o império vai se impondo na nossa Pátria, espero que não se repita o caso Zimbabwe…em Moçambique!!!!!!!!!!!!!!!!!! ou o caso de Sílvio Berllusconi, na Itália….

Como diz Santo Agostinho: “...Ó homem aprende a dançar! Caso contrario, os anjos não saberão o que fazer contigo”.

PS: Irmão gostava ter comentado directamente do seu Blog, mas neste “Ninho do pássaro”, as regras são outras….não tenho permit (em off the record) para ver blog, facebook, etc…

Jiamusi, R. P. China

Aos 04 de Outubro de 2009

Virgílio Sitole