No meu país já não há xiconhoca.
PC Mapengo
https://bit.ly/2qg0e9J
Este é um blog que pretende ser interventivo, numa perspectiva diversa de muitos que já existem. É um espaço de partilha de pontos de vistas sobre os mais diversos assuntos.
Meu velho general,
Desta minha Matola onde Basílio Muhate e Milton Machel, sem compreenderem como nós os dois que é bom criar trincheiras, dizem que fico a me fantasmagorizar, te escrevo esta carta de quem nunca percebeu para quê servem as armas, muito menos as guerras.
Mas há tanta coisa que eu não percebo meu general. Por exemplo como é que não consegues compreender que o jogo acabou mesmo depois do apito final.
Quando falo do jogo me recordo de uma entrevista que deste na TVM, há anos para o programa “Estamos Juntos”, penso que era esse, de Emílio Manhique onde falavas do teu amor pelo futebol e que não gostavas por nada de perder.
Me disseram que também és do Ferroviário, General. Penso que agora que mudaste a capital para Nampula dificilmente irás ao Estádio da Machava. Eu também não iria General, aliás, também não vou apesar do Estádio estar no quintal da minha casa.
Mas o senhor tem outras razões para não se dirigir a Machava. Não se pode trocar Nampula pela Machava.
Olha General, eu percebo a tua vontade de mudar a capital para Nampula. Eu também se tivesse o mesmo poder que o senhor o faria. Não quero acreditar que seja por razões políticas. Há coisas mais importante que política. A minha amiga Ani, romântica como ela sempre foi diria mesmo que há coisas mais importantes que política e dinheiro e nós os dois sabemos o que é.
Se meu amigo Egídio Vaz, um ilustre bicho político, viesse me dizer que a política está em tudo, ficaríamos logo com a certeza que ele nunca foi a Nampula com espírito de um verdadeiro cavalheiro.
Em Nampula aprende-se a saborear com os olhos o mais puro da beleza sensual. É só te pendurares num dos postes das velhas ruínas da Ilha de Moçambique para te deliciares com a sensualidade da dança de um feminino corpo macua, como as senhoras do grupo Estrela Vermelha. Sabe general que sempre que olho para aquelas mulheres dançar com toda aquela levaza chego a pensar que elas controlam o tempo?
Sim, lá se controla o tempo. Pelo menos elas controlam o tempo, elas ditam as regras e tu te apaixonas, soltas o verbo e pensas que caçaste quando não passas de uma presa.
Penso que um homem honesto e de uma boa família, isto só para não dizer bem-educado, não pode ir a Nampula casado. Em Nampula não se vai casado casa-se lá.
Voltando aquela entrevista, General, eu percebo hoje o porquê da promessa de pôr o país a “arder chama”.
Mas no lugar de olhar para o que os outros fazem para que o senhor não ganhe as eleições, para que se ponha em causa as suas ordens, para que se recuse um diálogo puro por parte do seu oponente, porquê não prestar atenção àquilo que o General faz para perder.
Gostei do seu regresso em Cabo Delgado meu General. A nossa política estava a ficar nos mesmismos com os avanços e recuos do ministro dos transportes, com a falata de coesão nos discursos da cesta básica do nosso Governo, com auto elogio do partido no poder. Estava tudo cansativo e precisava de algo novo de uma outra linha. O seu despertar nessa província das lindas praias veio mudar o discurso político e pôr gente a comentar algo diferente. Parabéns general.
Contudo general, penso que o senhor não se apercebeu que uma luta política não se ganha com as mesmas estratégias de guerrilha. Penso que se esqueceu de se desmobilizar. Se esqueceu da famosa frase de “um homem válido na guerra é inválido na paz.”
O senhor conseguiu manter-se líder. Mas faltou dar sustento a essa figura de “líder” que sempre ostentou.
Repete a ideia de ser mais jovem e mais bonito como se eleições fossem concursos de beleza e porte físico.
General, nunca ouviu os economistas dizerem “cuidado com os pequenos furos porque fazem grandes rombos”?
Não General, acho que a sua estratégia, pode até ter ser boa em termos militares mas politicamente não funciona General!
Não acredito que funcione a sua ostentação de força apresentando-se como o homem mais armado desta nossa “Pátria Amada” mesmo reconhecendo que a nossa segurança é composta por uns “magrinhos” que o General pode pegar “um a um”. Porquê lembrar sempre os nossos pecados? Porquê tem de nos pôr constantemente entre a bazuca e a parede?
Sei que não tenho direito de me meter na sua vida, mas acho que é hora exacta para irmos nos sentar na nossa nova capital apreciar o que de mais belo há lá. Vamos ouvir Boby Marley e reinventarmos a nossa paz.
Aquele abraço, General
Gostava de saber como é que um coreógrafo na China recebe a notícia da morte de um pintor. Um dia te escreveria para falarmos de Matalana, que há muito tempo não vamos para nos esquecermos da correria da cidade.
Sabes Virgílio, as cidades têm esse poder de nos sufocar nos tristes noticiários de austeridade, que nunca percebemos em quê realmente se corta e onde os preços realmente foram congelados. É onde fingimos a nossa existência empacotados nos fatos e gravatas, como se neles reflectíssemos toda a nossa inteligência. Assim fingimos a nossa seriedade.
A cidade é uma existência irrealista, onde mais do que ser é preciso parecer. É preciso sentar-se na explanada de um restaurante caro e pedir um duplo de wiskey com muito gelo, demorar-se duas horas na mesma página de jornal simplesmente para muitos passarem por ti e acreditarem que tens condições para pertencer à elite.
Por isso que nós íamos à Matalana, Virgílio. Lá voltávamos à nossa condição humana. Não tínhamos de parecer inteligente com uma pequena chávena de café que tomávamos em duas horas numa explanada de luxo. Tínhamos de parecer nós.
E fomos na roda de canhu em Fevereiro, numa casa enfrente a obra de Malangatana, onde entramos feito turistas e vasculhamos cada detalhe da sua construção como se inspeccionássemos o tempo. Admirávamos tudo que, para ti, sobrinho do mestre, parecia normal. Até à sua grandeza era para si normal. Penso que essa é a desvantagem de ser parente de astros, pois nunca conseguimos ter a noção do brilho deles.
Será que conseguias olhar para ele para além dessa condição natural de ser seu tio, ascendendo para o seu estatuto de artista universal que não precisava de ser apresentado? Perguntei-te isso quando subíamos o areal que dava à casa da sua mãe Tchembene, onde os velhos se reuniam para beber xindere com o prazer diferente do nosso beber wiskey para ganhar estatuto.
Sim, Virgílio, em Matalana a música é uma coisa permanente. É como se as pessoas inventassem motivos para cantarem. É como se tudo desse uma linha para música. Por isso que essa tendência “malangatana” para cantar em qualquer momento não me surpreende.
Melhor seria dizer que Marracuene pode não ter criado a música, mas aquele distrito soube fazer da música a sua forma de respirar. Por isso que surgiu esse eterno “duelo” de Fanny Mpfumo e Dilon Djindji. Tu sabes, Virgílio, que são dois mestres que entrar em debate sobre quem é melhor não interessa.
Mas, quando te falava da roda de canhu em Matalana, onde Malangatana apareceu e pôs-se logo a cantar tamboreando a sua barriga como a electrizar todo o mundo para o seguir, alguns velhos que se juntaram a nós foram falando de Dilon. Mesmo não sendo de Matalana, a sua fama de “Don Juan”parece ter se estendido por lá, onde espalhava seu charme juvenil com uma viola, que o dava passaporte nas principais cerimónias do distrito. Dilon diz que “marrabenta” vem também daí. Recorda-se que nos contou também em Matalana, essa sua tendência de arrebentar com todas.
Se Marracuene teve a capacidade de criar estrelas como Dilon, Armando Mabjaia e Fanny, Matalana conseguiu chamar para si, na sua miniatura, senhores que dominariam o panorama cultural moçambicano, como o fez Lindo Lhongo.
Como Malangatana, Lhongo teve a capacidade de voltar às origens e beber tudo que as ervas do seu Matalana o podiam oferecer. Se formos a falar de dramatologia moçambicana, Lhongo posiciona-se como o líder da fileira. “O lobolo” é a sua mais emblemática obra. Lhongo distancia-se do tradicionalismo que muitos procuram demonstrar quando tratam destes assuntos para mostrarem que são mais africanos que os outros. Ele apresenta-se como artista que deixa a alma falar mais do que as regras que os críticos colocam. A isto Malangatana dizia que era “pintar o que sonho ou o que está na cabeça”. Esse parece ser o lema dos senhores de Matalana, deixar a alma falar mais alto que a cabeça.
Em Matalana, onde há muito não voltamos mano para sentarmos à volta da fogueira e fingirmos sermos bons contadores de história na noite, onde, mentalmente, inventamos monstros com base nas pinturas de Malangatana, sentias a verdadeira paz.
Podia voltar agora para vermos as longas pernas de Mudledlelene que se posiciona logo na entrada do Centro Cultural, como se fosse guardião dos segredos dos filhos da terra. Gostava do mito de Mudledlelene que você e seus companheiros de “Batalhão Zero” contavam nessas noites. É nas noites que animavam as histórias. Depois de irmos convencer a sua mãe e cunhada do mestre, Tchembene para nos dar uma “primeirinha”- diziam ser boa para lombrigas – as noites ganhavam cor e nós nos inspirávamos.
Diziam que Mudledlelene estava contra os amores roubados. Os homens e mulheres encontravam-se no extenso mato de Matalana para se amarem. Preferiam sempre as noites sem luar para se esconderem-da visão feiticeira de Mudledlelene. Quando os amantes se entregavam aos prazeres Mudledlelene – não conheço o seu género, apesar das belas ancas – aparecia e dizia “ni ku vonile”, o mesmo que “ti vi”.
Malangatana não escondia as histórias de feitiçaria que moldavam Matalana. Assumia essa sua existência e assim assumia a sua condição de homem de uma terra com identidade própria. Era como se dissesse sou do mundo, mas sou daqui. Penso que é isso que faz a vocês também jovens de Matalana, Virgílio. Podias ser simplesmente um coreógrafo da cidade que se perde pelas terras chinesas e não volta a Matalana para buscar os fantasmas que te assustaram na infância para o seu bailado, como também não o teria feito Cardoso Lindo como encenador, ir buscar à forte tradição da terra do seu pai Lindo Lhongo para contar a história colonial.
Ir à Matalana era minha forma de fugir a essa inexistência, que a cidade me oferece e tentar encontrar-me na terra onde todos aprenderam na infância a serem artistas. Onde ainda voltam nas noites quando os bebés nascem para as mostrar a lua ao jeito de “kenkeguelekeze”.
Um dia vou escrever-te sobre Matalana sem ser para falar da dor ou da cor “apagada” de Matalana.
Prometeu uma viagem aos temas que contaram a história deste país e fez uma digressão pelo seu próprio percurso musical como quem prova que “não só de memórias vive o Chico”.
Tinha prometido uma visita a sua memória. Assim recriou-se em pensamentos um espectáculo que faria uma viagem pelos tempos de bacela como “Merkandonga” onde todos reclamavam – o cliente e o vendedor: “dizem que estamos a lhes burlar mas não sabem que também compramos a preço elevado”- justifica-se uma das vendedoras na música que já nesse “antigo tempo” mostrava a importância das influências. “Unga mu dzivale Ibrahimo” ou “não te esqueças de Ibrahimo, é um velho cliente, passe-lhe o camarão por trás para que os outros não se apercebam”.
Essa música saltava da platéia entre os intervalos dos outros temas que Chico António ia interpretando. Era como se lembrasse a estrela que havia uma música escondida na sua memória, tal como o “hantlisa maria” – depressa Maria, arrume as suas coisas que tem um carro que vai a Gaza.”
A província de Gaza era vista como ponto de partida para o desenvolvimento. Podia também simbolizar o campo de onde se podiam – também nessa altura – ver como o pólo de desenvolvimento. Era desta província onde residia o sonho de alimentar o país com o arroz de Chòkwé.
As performances de Chico António têm, para o artista, o dilema de se criar “espectáculos paralelos”. É como se o público respeitasse as escolhas do artista mas que exigisse também que este corresse pela sua vontade. Mas é com a classe e segurança, aliada a nomes como Carlitos Gove, Paito Tcheco, Rufus e Simão. Juntou vozes femininas e levou um violino para sublinhar as músicas.
Quando, na semana passada se fez ao Franco Moçambicano para um “back to the time” foi buscar temas marcantes como “Baila Maria”. Na Orquestra RM, Chico António fez com Mingas uma das mais brilhantes duplas deste “País da Marrabenta” como diriam os Gpro. A ideia, contou Chico António ao “País Fim de Semana”, quando compôs a música era cantar sozinho e em português, mas convencido pelos seus “bosses” juntou a brilhante voz de Mingas e mudou para “tsonga”. Nasceu assim um dos clássicos deste “alquimista” da música que faria Manu Dibango retirar-se do seu sossego e o dar Prémio Rádio França Internacional. “Depois disso senti que já não era mais o mesmo,” disse nessa entrevista.
Tinha razão, “já não era mais o mesmo”. Nos seus espectáculos, o de Franco não foi diferente, encontra-se esse Chico António que faz experiências e aceita todas as influências. – “Escuto todo o tipo de música, até rock metal”. Mas esqueceu-se de dizer que a sua música carrega toda essa dose como nos levando pelos becos sul-africanos na lembrança, mesmo que a distância, de Sipho Mabuzi ou então numa quase doce e lenta morte de reggae que podia se confundir com uma voz emprestada de Alpha Blond.
Depois se posiciona como um “soba” e dita o ritmo que o público tem de dançar. Serve com uma tendência blues as cadências de uma noite, nesse raro jeito de arrancar aplausos com “Comer Camarão”.
Mas nessa relação com o público, Chico sabe que há coisas que não se podem fugir. Os grandes artistas sabem, disso, mesmo quando desligam os equipamentos e simulam um “asta la vista”. Sabem que não é isso que faz com o que o público abandone a platéia como também sabe que este pode ficar na sala e exigir – no caso de Chico António – que se cante “hantlisa Maria” e demonstrar essa vontade de ir a Gaza “pegar na enxada, plantar mandioca e criar gado.”
Uma coisa boa sobre a música
é que quando ela bate
você não sente dor.
Para Tony Django
Eu sei que nunca se vai parar a música,
mas acredite que ela não será mais a mesma.
Mano, esta é uma carta de memórias. Também é o que se pode fazer quando se dedica a uma estrela que temos de aprender a ver o seu brilho através do coração porque sabemos que ela “não brilhará mais aqui.”
Acho que nunca te disse, mas sempre me recordaste Peter Pan. Me prendia sempre a assistir esse personagem que o seu maior, senão único, medo era ser adulto. Queria prender se na eterna infantilidade e se deliciar com as histórias da Wendy porque “acreditava em fadas”.
Será que acreditavas em fadas Tony? Me esqueci de te perguntar isso na única entrevista que me concedeste. Foi só uma entrevista não por tua culpa, mas porque sempre tenho dificuldades de entrevistar os meus amigos. Fica-me sempre aquela sensação de que de todas as perguntas que vou fazer, tenho as respostas.
Agora sei que é presunção. Sei que muitas perguntas ficaram por te fazer. “Acreditavas em fadas?”
Nunca te perguntei isso, como também não te perguntei se serias capaz de fazer outra coisa senão cantar? Se podias ser uma outra pessoa que não Tony Django? Agora sei que não te conhecia.
Olhava para ti e me recordavas Peter Pan.
Sempre me fascinei com a sua fragilidade infantil de um personagem que amava como adulto e estava preparado para lutar e demonstrar seu poder perante capitão Gancho.
Tinhas esses traços frágeis de adolescentes e te soltavas em sonhos na poderosa música de adultos. “Uta Bala ka Mani” é onde aparece a tua potência como se o seu corpo franzino ganhasse massa e exigisse que olhassem para ti como adulto.
Katchume era o exemplo de música que se podia fazer nessa altura. Rompiam com os estrangeirismos que dominavam a juventude e corriam para as raízes sem deixarem de introduzir conceito world típico das grandes bandas africanas.
Depois do sucesso do Ghorwane, precisavamos de uma renovassão que nos ajudasse a compreender o verdadeiro valor dos bons rapazes. E Kapa Dêch deu uma resposta a altura e nós percebemos o quanto este país estava a precisar de equilíbrio em termos de música.
Se lesses esta carta mano, sei que saberias que não estou a fazer nenhuma comparação pois são dois grupos completamente diferentes. Não falo apenas nas suas estruturas como também em estilo de música. Estou simplesmente a dizer que vieram mostrar que há muitos caminhos pelos quais se seguir.
Penso que isso é o que falta nestes dias.
Me esforço agora que te escrevo, a ouvir Dorropa. Me esforço porque é arrepiante lembrar que cada música em que aparece a tua voz é exactamente a última música em que emprestas o teu encanto de “fadas”.
Dorropa me fascina. É como se, pela tua voz me oferecesse a imagem de uma cidade que está a ser vendida aos bocados e se enche de sugidade. É retrato de um país degradado.
Olha mano, também não te perguntei sobre este país. O que achavas deste país? Acho que – estou a ser novamente presunçoso – dirias “haaa deixa lá disso vamos lá ali....”
Então nos meteriamos pela rua da Resistência irias querer falar da música que era o que corria em ti. Insistirias em me contar, acho que pela oitava vez, o sonho de construireres uma casa primeiro andar onde embaixo funcionaria um estúdio ou um centro cultural.
“Querias viver com música em casa?”
Acho que diria – “obviamente, eu sou a música”.
Eu sei mano que a música não vai deixar de existir. Iremos a Malhangalene beber um copo. Vamos cantar no Gil Vicente e dançar no África.. A música vai continuar, mas não será a mesma coisa.
Não haverá Dorropa com tua voz, não vamos ouvir “Mamane” e o seu apelo a iguladade “hi tlanlane magoda hita ringanana – penso que é assim que se escreve – tirem-nos as amarras para estarmos ao mesmo nível - não se fará mais tributo sem teu nome, não haverá mais Tony Django na última correografia do espectáculo do K-10!
Acho que nunca te disse, mas sempre me recordaste Peter Pan. Me prendia sempre a assistir esse personagem que o seu maior, senão único, medo era ser adulto. Queria prender se na eterna infantilidade e se deliciar com as histórias da Wendy porque “acreditava em fadas”.
Será que acreditavas em fadas Tony? Me esqueci de te perguntar isso na única entrevista que me concedeste. Foi só uma entrevista não por tua culpa, mas porque sempre tenho dificuldades de entrevistar os meus amigos. Fica-me sempre aquela sensação de que de todas as perguntas que vou fazer, tenho as respostas.
Agora sei que é presunção. Sei que muitas perguntas ficaram por te fazer. “Acreditavas em fadas?”
Nunca te perguntei isso, como também não te perguntei se serias capaz de fazer outra coisa senão cantar? Se podias ser uma outra pessoa que não Tony Django? Agora sei que não te conhecia.
Olhava para ti e me recordavas Peter Pan.
Sempre me fascinei com a sua fragilidade infantil de um personagem que amava como adulto e estava preparado para lutar e demonstrar seu poder perante capitão Gancho.
Tinhas esses traços frágeis de adolescentes e te soltavas em sonhos na poderosa música de adultos. “Uta Bala ka Mani” é onde aparece a tua potência como se o seu corpo franzino ganhasse massa e exigisse que olhassem para ti como adulto.
Katchume era o exemplo de música que se podia fazer nessa altura. Rompiam com os estrangeirismos que dominavam a juventude e corriam para as raízes sem deixarem de introduzir conceito world típico das grandes bandas africanas.
Depois do sucesso do Ghorwane, precisavamos de uma renovassão que nos ajudasse a compreender o verdadeiro valor dos bons rapazes. E Kapa Dêch deu uma resposta a altura e nós percebemos o quanto este país estava a precisar de equilíbrio em termos de música.
Se lesses esta carta mano, sei que saberias que não estou a fazer nenhuma comparação pois são dois grupos completamente diferentes. Não falo apenas nas suas estruturas como também em estilo de música. Estou simplesmente a dizer que vieram mostrar que há muitos caminhos pelos quais se seguir.
Penso que isso é o que falta nestes dias.
Me esforço agora que te escrevo, a ouvir Dorropa. Me esforço porque é arrepiante lembrar que cada música em que aparece a tua voz é exactamente a última música em que emprestas o teu encanto de “fadas”.
Dorropa me fascina. É como se, pela tua voz me oferecesse a imagem de uma cidade que está a ser vendida aos bocados e se enche de sugidade. É retrato de um país degradado.
Olha mano, também não te perguntei sobre este país. O que achavas deste país? Acho que – estou a ser novamente presunçoso – dirias “haaa deixa lá disso vamos lá ali....”
Então nos meteriamos pela rua da Resistência irias querer falar da música que era o que corria em ti. Insistirias em me contar, acho que pela oitava vez, o sonho de construireres uma casa primeiro andar onde embaixo funcionaria um estúdio ou um centro cultural.
“Querias viver com música em casa?”
Acho que diria – “obviamente, eu sou a música”.
Eu sei mano que a música não vai deixar de existir. Iremos a Malhangalene beber um copo. Vamos cantar no Gil Vicente e dançar no África.. A música vai continuar, mas não será a mesma coisa.
Não haverá Dorropa com tua voz, não vamos ouvir “Mamane” e o seu apelo a iguladade “hi tlanlane magoda hita ringanana – penso que é assim que se escreve – tirem-nos as amarras para estarmos ao mesmo nível - não se fará mais tributo sem teu nome, não haverá mais Tony Django na última correografia do espectáculo do K-10!
"Se você não tem motivos para sorrir,
pelo menos não dê motivos
para os outros chorarem."
Anónimo
Matola, 14 de Abril
Uma canção para Seth Swaze
Pelo seu aniversário e
pelas músicas que nunca gravou
Mano, uma vez descansava o triste peso de um dia em que corremos atras do que não sabemos só para nos iludirmos que fazemos alguma coisa. De remoto na mão fui repetindo essa inaptidão a procura, nas nossas TV’s, de qualquer coisa que pudesse assistir. Sabes Seth, há horas que nos apetece partir o televisor por não nos estar a servir para nada. Mas esse dia fui me prender na 21ª hora, e Fernando Lima sugeria para ler “A Ditadura da Media”.
Me admira o poder disciplinador da media do mesmo jeito que me assusta a forma de interferir nas nossas vidas. Uma espécie de invasores impiedosos que se dão ao luxo de determinarem o que temos de fazer, onde devemos comprar e o quê comprar. Pior, a quem amar!
A media venceu. A Televisão tomou de assalto o papel previligiado dos pais e passou a ser o educador destes e dos seus filhos. Já te apercebeste do silencio que os pai impõe ao filho na hora do telejornal e aquele que a mãe sujeita quando passa uma telenovela?
Te dizia mano que a media venceu e determina onde comprar as coisas. Rui Michel foi a última vítima dos bifes por ter feito compras no Xipamanine. Va ka hina, por se ser músico não se pode fazer compras no Xipamanine?
O que mais intriga é concentração das pessoas para ver “daqui a pouco”essa grande matéria. E ainda me vem dizer que o tempo de antena na TV é caro. Façam-me rir.
Mas te queria falar de música mano.
Parti dos breves minutos da tua música ontem para recuar no tempo em que com Zé Manuel – onde anda esse companheiro? – fizeram uma parelha e percorreram um jazz todo gospelizado cheio de marrabenta que alertava “deixem os pintos crescerem”. Queria voltar para o poder da música que a media não encontra motivos para a expor nos seus canais (falo das TVs) porque o tempo da antena é caro.
Voltei aos spirituals que não eram exactamente das noites revolucionárias da capoeira ou do hip-hop das ruas novaiorquinas importados dos ritmos da jamaica.
Eram música de lamento e crença no poder divino para o descanso espiritual, pelo peso de tanto trabalho nas plantações de canas-de açucar. Será daí que evoluiu a tua música Seth?
Essa minha leitura pode ser influenciada pela tua ligação com a religião onde parece ser a base para a grande música. Podia correr para os coros que inspiraram os Boyz II Man, mas posso me prender – gosto desta – na Irinah ou mesmo na Lizha James dos tempos iniciais da sua carreira em que a voz era o seu principal instrumento de sedução. Lembras?
Alguns dos teus ídulos também não se escapam dessa influência religiosa, falo por exemplo de Arão Litsuri. A tua música me levou de volta a esse passado para compreender a evolução de algumas das nossas histórias.
Na sexta-feira fazes 34 anos e vais cantar para os teus amigos no Mbuva. Espero esse regresso, e acredito que na tua marrabenta, afrojazz e gospel teremos uma forma de fazer uma viagem pela world music, do nosso jeito.
E espero que depois trabalhes para produzires um disco e que ganhes mais indo ao palco que indo ao tribunal como advogado.
Hã... cuidado, se fores as compras ou se fores dar umas voltas pelas avenidas onde as mulheres estão dispostas a te amarem por uns minutos a troco de alguns valores podes ser o proximo bife.
Aquele abraço
PC