quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Encanto de mulher

 

- Posso sentar-me?

Tinha uma voz arrebatadora feita de uma sensualidade melódica. Ele levantou os olhos. Nunca tinha visto uma mulher igual. Dizer simplesmente linda era ofensa. 


As luzes da disco refletiam sobre os seus cabelos que esvoaçavam num misterioso vento que não dava para perceber a sua proveniência. Era como se ofuscasse a sua visão.  Só passados alguns segundos enfeitiçado por aquele olhar e num místico sorriso daquela mulher é que se apercebeu que estava a falar com  ele. Atrapalhado, precipitou-se em levantar-se, derrubando os copos na mesa e meio copo de cerveja manchar as suas calças na zona genital. 

  

Não sabia se estendia a mão ou a oferecia a boxexa para dois beijinhos. Prendeu-se nessa indecisão e nada feito a não ser um tímido e gaguejado “sim, claro, pode se sentar”.


Ela desfilou passando por ele sempre com o sorriso colado nos lábios. 


Tinha um suave andar de uma gazela desejosa por ser atacada. Tudo nela era perfeito. Era como se antes de ser feita mulher ter sido  desenhada, projectada e montar-se peça por peça e cada uma delas com uma missão clara. Era a perfeição. 


“Se Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo não descansou, dedicou-se a fazer aquela mulher.” Pensou.


Correu do outro lado da mesa para se antecipar e puxar a cadeira para ela sentar-se. Agradeceu-lhe com um sorriso, passou levemente a palma da sua mão pelo rosto dele, sentiu seu corpo tremer e os membros oficiais para isso retesarem-se. A sua mente não lhe obedecia, nada o obedecia. Era tudo mecânico. 


- Morri?


Achou que estivesse a pensar, mas os seus lábios reproduziram a fala em alto, superando som ruidoso da discoteca. Ela sorriu. 


- Estás sozinho?

- Meus amigos acabam de sair. 


Respondeu triste por seus bradas terem ido embora e não poderem apreciar aquilo tudo que estava à sua frente. “Qual é a graça de ter um monumento daqueles sem um amigo para sentir inveja?”


- Eliana - disse ela, naquela sensual e excitante voz. 

- Enzo - não sabia se respondeu ou se havia pensado. 

Nessa altura o garçom  depositava na mesa champanhe e duas taças.

- Não te importas? Tomei a liberdade de pedir bebidas para nós.


O seu coração acelerou. Fez cálculos rápidos e só tinha dinheiro, no mínimo, para duas gongondzas. Como iria pagar aquilo tudo. Baixou os olhos e ganhou consciência da sua realidade. 


Uma mulher daquelas não era para beber gongondza.


- Relaxa baby. Posso te chamar baby? 

Ele já não tinha certeza. O dinheiro no bolso não dava para pagar essa forma de tratamento. A voz dela o despertou dos seus medos.

- Eu pago as bebidas - ouviu Eliana dizer. 


Não podia se dar ao luxo de fingir resistência tipo “nada disso” armar-se em cavalheiro porque ela ainda podia anuir.


Trinta minutos depois já estava num grande love de infância. Enzo puxou a sua cadeira para o lado dela que estava com uma das pernas sobre a sua. Eram beijos e carícias intermináveis.


- Devíamos sair daqui. - Sugeriu Eliana. 


Enzo já estava em pé antes mesmo dela terminar de falar. Saiu triunfal com a mulher mais bela daquela noite o pegando pela mão. Um pouco distante do parqueamento tirou as chaves e as luzes de um carro alemão, preto sinalizaram como se os estivessem a chamar.


- Que carro!

- Enzo não queria que ela ouvisse isso.

Eliana sorriu. 

- Gostas?

- Se gosto? Adoro!

- Então podes conduzir. 


Enzo correu para o volante. Estava fascinado com a mulher e com a possibilidade de conduzir um carro que só via nos filmes. 


- Se quiseres pode ser teu. 


Disse Eliana quando Enzo estacionava na  porta da sua casa na T3. Estava desiludido. Os seus vizinhos fofoqueiros que sempre estavam na rua a qualquer momento, justo naquela sua hora triunfal, ninguém estava para o ver descer daquele carro e dar um longo beijo a uma mulher que não se compara com nenhuma das “paga lá uma” que ele as tem chamado de “amor”.


- Posso te ver amanhã.

Claro que podia. 

- Por mim pode me ver até amanhecer -  Enzo considerou esta uma frase poética e sorriu logo depois de a pronunciar.

 - Não, “chéri”, amanhã tenho que acordar cedo. - Disse Eliana pausando cada palavra com beijos rápidos.


Amanhã chegou.


Ela estacionou um Dodge Charger em frente a casa de Enzo que saiu quase a correr. A sua elegância num vestido creme que a colava o corpo seguindo cada curva da sua fartura africana era agressiva.  O seu perfume era palpável. Era uma fragrância física que se colava às narinas. 


Pela primeira vez a fé católica de Enzo foi abalada. Achava Deus injusto. “Como podia um ser justo dar toda a beleza e formosura a uma única mulher, quando tem outros que quando estão a ir parecem estão a vir?”


Enzo sorria, mas não por ela, mas por seus vizinhos terem saído para apreciarem aquele carro que transportava uma mulher que parecia sair de um filme com Girl Bond. Ela afastou-se para dar o volante ao Enzo. 


O carro entrou num condomínio e os dois entraram numa casa de dois pisos depois de terem deixado a piscina para trás.


“Luzes” - disse Eliana como se fosse voz devia e “fez-se luz”. Toda a casa ficou iluminada para deixar ver mobília da primeira linha e os traços finos do rosto daquela mulher. “Isto é a única coisa que devia ser chamada de mulher”. Disse para si fazendo esforço de afastar do seu pensamento todas aquelas marandzas que só sabem “posso te pedir algo?”


Eliana deixou cair o casaco para o fino vestido colado ao seu corpo realçar toda a sua elegância. Serviu dois whiskys, foi em direcção ao sofá branco, esticou a mão enquanto sorria. 


- Vens?


Enzo controlou as suas pernas para não correrem. Pegou ao de leve a mão dela, recebeu a sua bebida, deu um gole ao mesmo tempo que ela. Recolheu os copos, deixou numa mesinha de vidro que estava no centro da sala. Deitou Eliana no sofá, afundou a sua cara nos seus peitos sentindo o delicioso perfume. Tremia todo. Em toda a sua vida nunca tinha pilotado um avião como aquele e nunca sonhou em o fazer. 


A sua mão deslizou pelo corpo da Eliana e penetrou pelas zonas quentes à procura das zonas baixos. Num instante parou. O mundo parou! Um grito explodiu na sala.

- ÉS HOMEM!


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terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Nós não matamos o Cão Tinhoso

 Liberdade é pelo que lutamos quando tememos perder a paz


Não, não foi nenhuma mentira.


Na verdade ele morreu, nós o matamos. Vimos os miúdos, no meio daquela floresta a descarregarem sobre ele as suas espingardas. O seu corpo transformou-se em buracos de rede de pesca e estendeu-se ali, morto.


Ou melhor, pensamos que estivesse morto.


Nos abraçamos naquela interminável alegria, naquele dia chuvoso de Junho. Sentimos o alegre cheio da liberdade e naquela memorável noite em que nos abraçávamos incansavelmente sem nos interessarmos em saber de onde cada um de nós vinha, nos juntamos na Machava para vermos alegremente a nossa bandeira subir enquanto baixava-se triste fotografia daquele maldito cão tinhoso.


Era o doce cheiro de liberdade.


Nesse dia, tivemos o prazer de sonhar.


Não haveria mais vinho para os pretos. A nós não se reservaria mais a porta dos fundos e assistirmos o gordo patrão comendo bacalhau. Não seríamos mulas de carga de ninguém, não nos contentaríamos com quarta classe elementar e nos orgulharmos em voz alta por conhecermos Zé Maria Relva. Não iríamos sorrir a tudo que o patrão dissesse só para parecermos simpáticos.


Nós matámos o cão Tinhoso.


Ou, pelo menos naquela noite, na Machava, onde ouvíamos pela rádio numa voz forte e firme alguém gritar “moçambicanas, moçambicanos” tínhamos certeza que havíamos aniquilado o cão Tinhoso.


Foi a nossa noite mais longa. Saímos à rua para brindar. Fizemos amor como se não houvesse mais amanhã. Rasgamos as guias que nos permitissem entrar para a cidade reservada apenas aos brancos.


Nós éramos os patrões.


Pelo menos assim pensávamos naquela noite que alguém gritava lá na Machava “operários, combatentes, camponeses”, nos sentindo todos incluídos num projecto onde ninguém ficaria de fora só por pegar uma enxada. Era doces palavras com aroma de inclusão.


Tínhamos certeza absoluta da morte do cão Tinhoso.


Todos nós o vimos morrer.


Nós vimos os miúdos meterem um cartucho na Calibre 12 de Dois Canos e o desfazer em pedaços. Por isso que enchemos a Machava e choramos enquanto assobiávamos quando o homem bradava proclamar solenemente a Independência Total e Completa de Moçambique”.


Foi emocionante!


Mas nós não matamos o cão tinhoso.


Não sei como, mas ele reapareceu vestido de fato e ocupou os escritórios, sorrindo ao nosso lado. Nos encaminhou aos “my love” nas mesmas avenidas onde os jovens saíram marchando aos gritos “Povo no Poder” enquanto os médicos pelas varandas dos seus consultórios reivindicam melhores condições e os professores fartam-se de beber água.


Não me perguntem como.


Todos nós vimos o cão Tinhoso morrer, mas ele está ali. Em belos discursos que mostram uma nação onde o povo que não tem emprego e consegue ter três refeições por dia, onde quase 50 anos depois ainda temos filhos em salas sombras, onde a guerra ainda é uma realidade.


Não sei como. Todos nós vimos o cão tinhoso morrer.


Não sei como explicar, mas ele não morreu. Voltou. Festejou connosco a memorável noite da Machava, parecia tão humano como nós. Chorou como nós choramos de emoção pela sua morte, amou como nós a amamos.


Esteve sempre ali, do nosso lado.


Mas tenho certeza que o vimos morrer!



Inspirado em “Nós Matámos o Cão Tinhoso” de Luís Bernardo Honwana


#CartasAModaAntiga


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Manifesto Político



















No meu país já não há xiconhoca.

O capitalismo mostrou-se mais forte, recolonizou-nos pela globalização e não seguimos os princípios de igualdade simbolizados por um quilo de arroz por pessoa.

Aqui vivemos nesta liberdade simplesmente reservada aos mais fortes, estamos na selva, aliás, na economia do mercado.

Esqueceram-se dos princípios utópicos que nos fizeram rasgar as mangas da balalaica por um Moçambique melhor, por um país soberano!

Mas o que é soberania? É quando o mais forte domina e os fracos obedecem murmurando como um bêbado que se sente politicamente corajoso na barraca.

Viva a liberdade!

Levamos anos a combater a burguesia. Mas sabíamos que não podíamos vencer e o nosso hino que proclamava essa luta contra a burguesia, já não fazia sentido, era uma vergonha nacional. Todos nós queríamos ser burgueses e como combater o que queremos ser? O melhor era combater esse hino para não proclamarmos (até no parlamento) o nosso próprio fim!

Abaixo a burguesia!

Escutamos com saudade a voz forte num velho aparelho gravador. Saudades sim, mas ninguém quer voltar porque não podemos esquecer o tempo que passou. Mas vamos nos deleitar ouvindo. Alguém vai reclamar sobre a criminalidade e nós apenas podemos comentar com saudade desse passado que desenhámos todas as utopias de um país: naquele tempo isto não era possível.

Não era possível sim, eram bons tempos aqueles para os quais ninguém quer mais voltar. Todos queremos andar, queremos uma parcela para montarmos a nossa banca, violar as leis e contar com o apoio incondicional (se tiveres uma notinha) da justiça.

Independência ou morte, venceremos!

Essa é outra utopia, a nossa independência é muito cara, nem morte nem vitória conseguimos, ou não queremos mais essa luta, queremos pão, mas dizem que o combustível está caro e as coisas também devem subir, o dólar também não nos perdoa, nós dependemos do rand da vizinha Jhone. Mesmo com esta dependência económica somos realmente independentes.

A luta continua!

Isso não. Lutaremos pelo pão, lutaremos por dinheiro para transporte, lutaremos por levar nossos filhos à escola, mas não queremos mais lutar por ideologias, não nos metam nessa história de democracia!

Alguém me pergunta o que é democracia?

É a oportunidade que o povo tem de, em cinco em cinco anos, escolher a quem alimentar!  


PC Mapengo
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domingo, 28 de outubro de 2018

Brincando de ser feio

Para Lay pela forma como
 reinventa meus sonhos

- Vamos brincar de fazer cara feia?
- Eu não preciso filha, faças tu, eu já sou assim.
- Não é nada, se fosse mãe não teria casado contigo.
- Filha, lá vais entender gostos das mulheres. Explica-me como alguém pode casar com um magricelas como teu tio Júlio Mutisse; como alguém pode suportar teu tio Kalitxe Jaime Langa que em condições normais devia ter acompanhamento psiquiátrico permanente da tua tia Lili Fernandes? Já viste que tios Eder Matusse, Egidio Vaz e Bruné Machangana pensam que ser confuso é ser moderno? Já olhaste para os atropelados tio Azael Moyana e Anselmo Titos Cachuada? Achas que tio Dadivo Jose Litsecuane Combanetomou remédio de lua? Quando cresceres podemos ter essa conversa sobre gostos das mulheres.
Depois caímos na gargalhada. Sempre terminamos assim, porque tu me dás motivos para gargalhar, mesmo quando activo meu pessimismo e, atónito, acredito que não haverá mais amanhã. Mesmo quando as incertezas me perseguem e desespero me impera. Tu me fazes gargalhar.
Tu me reinventas como se fosses a proprietária do sol e o obrigas a iluminar-me. Tu me renasces como se tivesses o dom de aliviar o peso do universo. Me enganas como performance de um mágico. Só não consegues mudar minha cara para brincarmos de ser feios. Mas sei que contigo vou continuar a gargalhar e celebrar-te em todos os 26 de Outubro.
Hoje estás a crescer, não sei o que te direi quando me perguntares sobre gostos das mulheres, mas sei que tu continuarás a brincar de fazer cara feia, porque serás eternamente linda e eu continuarei com esta minha cara.
Feliz aniversário minha menina!

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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Paranóia Colectiva

Paranóia colectiva




Faço um esforço para manter os meus olhos abertos. Acho que este é o negócio final mais difícil de escrever, não pela falta da tal famosa “inspiração”. Estou com o corpo cansado e os olhos a não mais obedecerem-me de tanto sono depois de uma noite circulando pelas

ruas de Infulene nas patrulhas.



O medo instalou-se pelos bairros. O povo decidiu sair à rua para fazer o papel que devia ser da Polícia. Enquanto os dirigentes desta pátria amada se contentam em sentarem-se nas confortáveis poltronas e dizerem que isso não é prioritário, ou como decidiu fazer o ministro do Interior, pura e simplesmente dizer que esse grupo de criminosos engomadores não existe, a população optou por criar as suas próprias defesas.



No fundo, o que o Ministro do Interior, Alberto Mondlane e os outros camaradas fi zeram nestes dias todos, foi optar pela linha mais fácil que, de certeza, não se espera de um Estado onde tem cidadãos que pagam impostos. Dizer que esse grupo não existe é um caminho mais fácil. É o mesmo que aparecer de fato novo e dizer pessoal, foram atingidos por uma paranóia, voltem para casa e durmam em paz. Ainda bem que Sua Excelência Alberto Mondlane veio

mudar esse seu discurso quatro dias depois.



Mas que fique claro uma coisa: pode não existir tal de G20, G1 ou Gzero, mas existe criminalidade violenta em Maputo. Existem pessoas “de carne e osso” que foram assaltadas na paz das suas residências, agredidas, violentadas e outras que tiveram medo de lá voltarem. O mais importante aqui não são os nomes ou os números que se dão a essa gente, é a acção dela.



A solução desse problema não é simplesmente negar a sua existência e fazer passar a ideia de que gente que não está a dormir para fazer patrulha sofre de alucinação colectiva.



O pânico instalou-se! As pessoas saíram à rua para fazerem o trabalho que aparentemente devia ser da Polícia!



Mesmo que seja apenas uma paranóia colectiva, qual é o papel de um Governo preocupado com o seu povo? Acho que é fazer o mesmo que um pai zeloso faz quando o seu fi lho tem medo do escuro, fazer de tudo para que sinta que ele está ao seu lado e que não há perigo. Mas não é isso que se está a ver. Estamos a assistir uma clara falta de respeito para com essas pessoas assustadas pelas notícias de assassinatos. Pior, é que o nervosismo que acompanha

os famosos grupos de patrulha torna estes violentos, cria-se um estado de sítio e um claro clima de guerra que resulta em morte de inocentes, pessoas que são simplesmente confundidas.



Ainda bem que os discursos do ministro e do comandante-geral da Polícia, Jorge Khalau tomou outro rumo, pois continuar a dizer que não existem esses grupos para depois os seus homens anunciarem a detenção de “perigosos cadastrados que assaltam residências e torturam

pessoas” seria caricato. Como podem deter pessoas que não existem? Um País como esta pátria amada, que se quer sério, precisa de polícias que garantam segurança e não que andam a deter fantasmas!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta ao General (Actualizada)

As vezes construímos sonhos
em cima de grandes pessoas...
O tempo passa... e descobrimos
que grandes mesmo eram os sonhos
e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!
Bob Marley







Meu velho general,



Desta minha Matola onde Basílio Muhate e Milton Machel, sem compreenderem como nós os dois que é bom criar trincheiras, dizem que fico a me fantasmagorizar, te escrevo esta carta de quem nunca percebeu para quê servem as armas, muito menos as guerras.


Mas há tanta coisa que eu não percebo meu general. Por exemplo como é que não consegues compreender que o jogo acabou mesmo depois do apito final.


Quando falo do jogo me recordo de uma entrevista que deste na TVM, há anos para o programa “Estamos Juntos”, penso que era esse, de Emílio Manhique onde falavas do teu amor pelo futebol e que não gostavas por nada de perder.


Me disseram que também és do Ferroviário, General. Penso que agora que mudaste a capital para Nampula dificilmente irás ao Estádio da Machava. Eu também não iria General, aliás, também não vou apesar do Estádio estar no quintal da minha casa.


Mas o senhor tem outras razões para não se dirigir a Machava. Não se pode trocar Nampula pela Machava.


Olha General, eu percebo a tua vontade de mudar a capital para Nampula. Eu também se tivesse o mesmo poder que o senhor o faria. Não quero acreditar que seja por razões políticas. Há coisas mais importante que política. A minha amiga Ani, romântica como ela sempre foi diria mesmo que há coisas mais importantes que política e dinheiro e nós os dois sabemos o que é.


Se meu amigo Egídio Vaz, um ilustre bicho político, viesse me dizer que a política está em tudo, ficaríamos logo com a certeza que ele nunca foi a Nampula com espírito de um verdadeiro cavalheiro.


Em Nampula aprende-se a saborear com os olhos o mais puro da beleza sensual. É só te pendurares num dos postes das velhas ruínas da Ilha de Moçambique para te deliciares com a sensualidade da dança de um feminino corpo macua, como as senhoras do grupo Estrela Vermelha. Sabe general que sempre que olho para aquelas mulheres dançar com toda aquela levaza chego a pensar que elas controlam o tempo?


Sim, lá se controla o tempo. Pelo menos elas controlam o tempo, elas ditam as regras e tu te apaixonas, soltas o verbo e pensas que caçaste quando não passas de uma presa.


Penso que um homem honesto e de uma boa família, isto só para não dizer bem-educado, não pode ir a Nampula casado. Em Nampula não se vai casado casa-se lá.


Voltando aquela entrevista, General, eu percebo hoje o porquê da promessa de pôr o país a “arder chama”.


Mas no lugar de olhar para o que os outros fazem para que o senhor não ganhe as eleições, para que se ponha em causa as suas ordens, para que se recuse um diálogo puro por parte do seu oponente, porquê não prestar atenção àquilo que o General faz para perder.


Gostei do seu regresso em Cabo Delgado meu General. A nossa política estava a ficar nos mesmismos com os avanços e recuos do ministro dos transportes, com a falata de coesão nos discursos da cesta básica do nosso Governo, com auto elogio do partido no poder. Estava tudo cansativo e precisava de algo novo de uma outra linha. O seu despertar nessa província das lindas praias veio mudar o discurso político e pôr gente a comentar algo diferente. Parabéns general.


Contudo general, penso que o senhor não se apercebeu que uma luta política não se ganha com as mesmas estratégias de guerrilha. Penso que se esqueceu de se desmobilizar. Se esqueceu da famosa frase de “um homem válido na guerra é inválido na paz.”


O senhor conseguiu manter-se líder. Mas faltou dar sustento a essa figura de “líder” que sempre ostentou.


Repete a ideia de ser mais jovem e mais bonito como se eleições fossem concursos de beleza e porte físico.


General, nunca ouviu os economistas dizerem “cuidado com os pequenos furos porque fazem grandes rombos”?


Não General, acho que a sua estratégia, pode até ter ser boa em termos militares mas politicamente não funciona General!


Não acredito que funcione a sua ostentação de força apresentando-se como o homem mais armado desta nossa “Pátria Amada” mesmo reconhecendo que a nossa segurança é composta por uns “magrinhos” que o General pode pegar “um a um”. Porquê lembrar sempre os nossos pecados? Porquê tem de nos pôr constantemente entre a bazuca e a parede?


Sei que não tenho direito de me meter na sua vida, mas acho que é hora exacta para irmos nos sentar na nossa nova capital apreciar o que de mais belo há lá. Vamos ouvir Boby Marley e reinventarmos a nossa paz.


Aquele abraço, General

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Cor Apagada de Matalana

A alma humana é como a água:
ela vem do Céu e volta para o Céu,
e depois retorna à Terra, num eterno ir e vir.
Johann Wolfgang Von Goethe, escritor e pensador alemão

Para Virgílio Sitole, o bailarino de Matalana




Gostava de saber como é que um coreógrafo na China recebe a notícia da morte de um pintor. Um dia te escreveria para falarmos de Matalana, que há muito tempo não vamos para nos esquecermos da correria da cidade.


Sabes Virgílio, as cidades têm esse poder de nos sufocar nos tristes noticiários de austeridade, que nunca percebemos em quê realmente se corta e onde os preços realmente foram congelados. É onde fingimos a nossa existência empacotados nos fatos e gravatas, como se neles reflectíssemos toda a nossa inteligência. Assim fingimos a nossa seriedade.


A cidade é uma existência irrealista, onde mais do que ser é preciso parecer. É preciso sentar-se na explanada de um restaurante caro e pedir um duplo de wiskey com muito gelo, demorar-se duas horas na mesma página de jornal simplesmente para muitos passarem por ti e acreditarem que tens condições para pertencer à elite.


Por isso que nós íamos à Matalana, Virgílio. Lá voltávamos à nossa condição humana. Não tínhamos de parecer inteligente com uma pequena chávena de café que tomávamos em duas horas numa explanada de luxo. Tínhamos de parecer nós.


E fomos na roda de canhu em Fevereiro, numa casa enfrente a obra de Malangatana, onde entramos feito turistas e vasculhamos cada detalhe da sua construção como se inspeccionássemos o tempo. Admirávamos tudo que, para ti, sobrinho do mestre, parecia normal. Até à sua grandeza era para si normal. Penso que essa é a desvantagem de ser parente de astros, pois nunca conseguimos ter a noção do brilho deles.


Será que conseguias olhar para ele para além dessa condição natural de ser seu tio, ascendendo para o seu estatuto de artista universal que não precisava de ser apresentado? Perguntei-te isso quando subíamos o areal que dava à casa da sua mãe Tchembene, onde os velhos se reuniam para beber xindere com o prazer diferente do nosso beber wiskey para ganhar estatuto.


Sim, Virgílio, em Matalana a música é uma coisa permanente. É como se as pessoas inventassem motivos para cantarem. É como se tudo desse uma linha para música. Por isso que essa tendência “malangatana” para cantar em qualquer momento não me surpreende.


Melhor seria dizer que Marracuene pode não ter criado a música, mas aquele distrito soube fazer da música a sua forma de respirar. Por isso que surgiu esse eterno “duelo” de Fanny Mpfumo e Dilon Djindji. Tu sabes, Virgílio, que são dois mestres que entrar em debate sobre quem é melhor não interessa.


Mas, quando te falava da roda de canhu em Matalana, onde Malangatana apareceu e pôs-se logo a cantar tamboreando a sua barriga como a electrizar todo o mundo para o seguir, alguns velhos que se juntaram a nós foram falando de Dilon. Mesmo não sendo de Matalana, a sua fama de “Don Juan”parece ter se estendido por lá, onde espalhava seu charme juvenil com uma viola, que o dava passaporte nas principais cerimónias do distrito. Dilon diz que “marrabenta” vem também daí. Recorda-se que nos contou também em Matalana, essa sua tendência de arrebentar com todas.


Se Marracuene teve a capacidade de criar estrelas como Dilon, Armando Mabjaia e Fanny, Matalana conseguiu chamar para si, na sua miniatura, senhores que dominariam o panorama cultural moçambicano, como o fez Lindo Lhongo.


Como Malangatana, Lhongo teve a capacidade de voltar às origens e beber tudo que as ervas do seu Matalana o podiam oferecer. Se formos a falar de dramatologia moçambicana, Lhongo posiciona-se como o líder da fileira. “O lobolo” é a sua mais emblemática obra. Lhongo distancia-se do tradicionalismo que muitos procuram demonstrar quando tratam destes assuntos para mostrarem que são mais africanos que os outros. Ele apresenta-se como artista que deixa a alma falar mais do que as regras que os críticos colocam. A isto Malangatana dizia que era “pintar o que sonho ou o que está na cabeça”. Esse parece ser o lema dos senhores de Matalana, deixar a alma falar mais alto que a cabeça.


Em Matalana, onde há muito não voltamos mano para sentarmos à volta da fogueira e fingirmos sermos bons contadores de história na noite, onde, mentalmente, inventamos monstros com base nas pinturas de Malangatana, sentias a verdadeira paz.


Podia voltar agora para vermos as longas pernas de Mudledlelene que se posiciona logo na entrada do Centro Cultural, como se fosse guardião dos segredos dos filhos da terra. Gostava do mito de Mudledlelene que você e seus companheiros de “Batalhão Zero” contavam nessas noites. É nas noites que animavam as histórias. Depois de irmos convencer a sua mãe e cunhada do mestre, Tchembene para nos dar uma “primeirinha”- diziam ser boa para lombrigas – as noites ganhavam cor e nós nos inspirávamos.


Diziam que Mudledlelene estava contra os amores roubados. Os homens e mulheres encontravam-se no extenso mato de Matalana para se amarem. Preferiam sempre as noites sem luar para se esconderem-da visão feiticeira de Mudledlelene. Quando os amantes se entregavam aos prazeres Mudledlelene – não conheço o seu género, apesar das belas ancas – aparecia e dizia “ni ku vonile”, o mesmo que “ti vi”.


Malangatana não escondia as histórias de feitiçaria que moldavam Matalana. Assumia essa sua existência e assim assumia a sua condição de homem de uma terra com identidade própria. Era como se dissesse sou do mundo, mas sou daqui. Penso que é isso que faz a vocês também jovens de Matalana, Virgílio. Podias ser simplesmente um coreógrafo da cidade que se perde pelas terras chinesas e não volta a Matalana para buscar os fantasmas que te assustaram na infância para o seu bailado, como também não o teria feito Cardoso Lindo como encenador, ir buscar à forte tradição da terra do seu pai Lindo Lhongo para contar a história colonial.

Ir à Matalana era minha forma de fugir a essa inexistência, que a cidade me oferece e tentar encontrar-me na terra onde todos aprenderam na infância a serem artistas. Onde ainda voltam nas noites quando os bebés nascem para as mostrar a lua ao jeito de “kenkeguelekeze”.

Um dia vou escrever-te sobre Matalana sem ser para falar da dor ou da cor “apagada” de Matalana.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Memórias de um Espectáculo: O Dia que Chico Inventou a Música

Retirado daqui.

Memórias de um espectáculo
Policarpo Mapengo

Prometeu uma viagem aos temas que contaram a história deste país e fez uma digressão pelo seu próprio percurso musical como quem prova que “não só de memórias vive o Chico”.


Tinha prometido uma visita a sua memória. Assim recriou-se em pensamentos um espectáculo que faria uma viagem pelos tempos de bacela como “Merkandonga” onde todos reclamavam – o cliente e o vendedor: “dizem que estamos a lhes burlar mas não sabem que também compramos a preço elevado”- justifica-se uma das vendedoras na música que já nesse “antigo tempo” mostrava a importância das influências. “Unga mu dzivale Ibrahimo” ou “não te esqueças de Ibrahimo, é um velho cliente, passe-lhe o camarão por trás para que os outros não se apercebam”.


Essa música saltava da platéia entre os intervalos dos outros temas que Chico António ia interpretando. Era como se lembrasse a estrela que havia uma música escondida na sua memória, tal como o “hantlisa maria” – depressa Maria, arrume as suas coisas que tem um carro que vai a Gaza.”


A província de Gaza era vista como ponto de partida para o desenvolvimento. Podia também simbolizar o campo de onde se podiam – também nessa altura – ver como o pólo de desenvolvimento. Era desta província onde residia o sonho de alimentar o país com o arroz de Chòkwé.


As performances de Chico António têm, para o artista, o dilema de se criar “espectáculos paralelos”. É como se o público respeitasse as escolhas do artista mas que exigisse também que este corresse pela sua vontade. Mas é com a classe e segurança, aliada a nomes como Carlitos Gove, Paito Tcheco, Rufus e Simão. Juntou vozes femininas e levou um violino para sublinhar as músicas.


Quando, na semana passada se fez ao Franco Moçambicano para um “back to the time” foi buscar temas marcantes como “Baila Maria”. Na Orquestra RM, Chico António fez com Mingas uma das mais brilhantes duplas deste “País da Marrabenta” como diriam os Gpro. A ideia, contou Chico António ao “País Fim de Semana”, quando compôs a música era cantar sozinho e em português, mas convencido pelos seus “bosses” juntou a brilhante voz de Mingas e mudou para “tsonga”. Nasceu assim um dos clássicos deste “alquimista” da música que faria Manu Dibango retirar-se do seu sossego e o dar Prémio Rádio França Internacional. “Depois disso senti que já não era mais o mesmo,” disse nessa entrevista.


Tinha razão, “já não era mais o mesmo”. Nos seus espectáculos, o de Franco não foi diferente, encontra-se esse Chico António que faz experiências e aceita todas as influências. – “Escuto todo o tipo de música, até rock metal”. Mas esqueceu-se de dizer que a sua música carrega toda essa dose como nos levando pelos becos sul-africanos na lembrança, mesmo que a distância, de Sipho Mabuzi ou então numa quase doce e lenta morte de reggae que podia se confundir com uma voz emprestada de Alpha Blond.


Depois se posiciona como um “soba” e dita o ritmo que o público tem de dançar. Serve com uma tendência blues as cadências de uma noite, nesse raro jeito de arrancar aplausos com “Comer Camarão”.


Mas nessa relação com o público, Chico sabe que há coisas que não se podem fugir. Os grandes artistas sabem, disso, mesmo quando desligam os equipamentos e simulam um “asta la vista”. Sabem que não é isso que faz com o que o público abandone a platéia como também sabe que este pode ficar na sala e exigir – no caso de Chico António – que se cante “hantlisa Maria” e demonstrar essa vontade de ir a Gaza “pegar na enxada, plantar mandioca e criar gado.”

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Para quê Escrever Depois de Ualalapi?

Um livro que não se pode ler duas vezes
não merece ser lido uma vez.
(Já não me lembro onde li isto)

Para os meus velhos companheiros
na garagem, primeiro, e na varanda da AEMO,
nas noites que discutíamos literatura.
Fui ver Ungulani

Já não é boémio dos tempos que se seguiram quando, nos anos de 1990, o seu nome se confundia com Ualalapi. Nessa altura, entrávamos pela garagem da AEMO e juntávamo-nos para discutir sobre artes na Aro Juvenil e olhávamos para nós e víamo-nos grandes escritores que poderiam repetir a revolução da geração Charua, que invadiu a casa grande e se tornou em senhores das artes.
É dessa geração o Ungulani para quem eu olhava à distância enquanto trocava frases com Eduardo White, em mais um dos tantos lançamentos de livro.

Entre fumos de cigarros, quais mais velhos, gritavam de palco onde Sangare Okapi lutava para não ser mais Cardoso Lindo só para não ser, simplesmente, o filho do dramaturgo Lindo Lhongo. Ele queria seguir o seu caminho de poeta sem o fantasma do pai.

Nessa altura, atirava-se ao palco para declamar os seus poemas eróticos, enquanto Augusto Tembe esboçava uma dramática crónica, e Roberto Isaías ainda cantava “eu não chamei tchumba, chamei namorada”, nos Satélites.
Eu, Frederico Jamisse e Sangare Okapi, como nos tempos em que fazíamos teatro no Tintlari ta Hosi, desafiávamos as distâncias da Lhanguene para juntarmo-nos à malta entre todas as paixões que acompanhavam. Jamisse escrevia poemas de meter medo, onde repetia a ideia de sangue, sexo e violência e assinava como Freddy Cooper.
Milton Machel deixava-se levar em textos da Oasis e, mais tarde, declarar-se-ia – ou sempre foi assim - um rapper nas páginas culturais do Campeão onde, depois de correr desportivamente nas ruas de Alto Maé, atravessava a 24 de Julho para escrever poéticos textos de básquete.

Foi nessa altura que queria entrevistar Ungulani Ba Ka Khosa. Guardava ainda a troca de frases que fez com White em que um defendia “leiam para depois escreverem” e outro dizia “escrevam”. Nós queríamos escrever. Éramos putos que se assumiam escritores como o faria Ligeiro em “vendo poemas”.
Mas também era dominado pela paixão. Lembras-te Milton? Já falei sobre essa relação paixão e amor no que diz respeito ao jornalismo. Era altura em que éramos os putos do Campeão, quando importava mais correr e deixarmo-nos deliciar com os textos todos eles poetizados. Penso que fui vítima de Homero Lobo, esse meu mestre que, quando cheguei ao jornal pela primeira vez, olhou para mim e disse: - Escreva!
Não sabia o que iria escrever, mas tinha de escrever.
Ualalapi, de Ungulani, ecoava na minha cabeça quando liguei para ele a querer entrevistá-lo. Penso que na altura não sabia o que lhe iria perguntar. Acho que repetiria as perguntas dos testes da disciplina de português que faziam a pergunta que mais detestava.

“O que o autor quis dizer?” –irritava-me essa pergunta. Como saber o que o autor quis dizer?

Para Ungulani, não fazia sentido que um principiante o quisesse entrevistar. “Para vir perguntar meu nome e minha idade.” Justificou-se no encontro que teve com Homero.

Não sei se o perguntaria isso. Mas penso que falaríamos de Ualalapi. Ou perguntar-lhe-ia por que é que alguém que escreveu Ualalapi ainda precisa de publicar mais um livro. Porquê não se exilou nesse clássico que é um dos cem maiores livros africanos do século passado, como fez Luís Bernardo Honwana depois de “Nós Matamos o Cão Tinhoso”?

Porquê escrever depois de Ualalapi?

Essa pergunta perseguiu-me há dias quando combinámos a entrevista adiada há 12 anos. Não era mais o boémio dos tempos, mas mantém a sua coerência quando o assunto é política, como também não esconde o seu desamor quando fala de Samora Machel. “Era um ditador!”

Mas porquê escrever depois de Ualalapi? Perguntei, quando se posicionava para a fotografia. Não deixou de rir enquanto eu acrescentava. “Se fosse eu, depois de Ualalapi, não escreveria mais.”

Ele tem outra opinião. Nós é que andamos presos à fantasma de Ualalapi, mas ele já se libertou, razão pela qual consegue escrever outros livros como o seu mais recente “Choriro”.

Esta é uma carta que escreveria também para esse grande senhor da literatura africana, que soube desconstruir a história do império de Gaza para nos oferecer um livro sem preconceitos, onde os exageros o dão toda a grandeza.
Para Júlio Mutisse, esse meu irmão de todas as batalhas, “Orgia dos Loucos” é o melhor não só pela profecia que faz ao nascimento da Rosita numa árvore no tempo das cheias, mas tambem pela forma clara como olha para uma sociedade como um mundo de loucos.

Pode ser. Mas Ualalapi é Ualalapi.

Aquele abraço.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Jornalismo, Bachir e a Causa Nacional

“A sociedade que aceita
qualquer jornalismo
não merece jornalismo melhor."
Alberto Dines
Querida Zenailda Machado
Matola 12 de junho de 2010
Nunca percebi melhor o que queria dizer um jornalista e escritor brasileiro quando revoltado com a sua profissão e arte disse com raiva: “chega de escrita, vou plantar batas e criar porcos!”
Era a descarga de quem engolira tantos sapos e se desiludira com aquelas que para muitos – até para mim – é a apaixonante profissão. Mas ontem Z, me apercebi que o caso Bachir põe em causa a nossa capacidade de pensar friamente.

Não sei se dessa distância que te encontras da nossa índica pátria amada te apercebeste das trincheiras que se formaram. Os jornalistas se demitiram do seu papel e se posicionaram claramente como “advogados” – de defesa e da acusação.

Os discursos jornalísticos que foram repetidos nos jornais e TV’s moçambicanos quando a notícia de “Bachir barão de droga” explodiu como uma bomba, tinham um subtil tom de “ainda bem”. Era como se todos estivessem a espera desse momento. Os jornais não se deram tempo para julgar (o que não é tarefa deles) correram logo para o condenar (o que também não é tarefa deles). Na imprensa – e porque Barack Obama disse – ele era sem dúvidas “o barão de droga”da África Austral.

Z, ontem precisavas estar neste país do Índico. O assunto de Bachir era o assunto nacional. O país quase que parou para se acompanhar vídeo conferencias na Embaixada dos EUA. Os grandes senhores, os barões do nosso jornalismos, homens com opinião respeitada e que o público pára para os ouvir se encarregaram de estar nessa conferencia. Não era espaço para os “putos” pois o “droguismo”de Bachir é um caso nacional. Foram “hi u kulo” – como diria minha avo.

O mais chocante é a desilusão (ou alívio) com que muitos ficaram por aquilo que chamam de “falta de provas”. O discurso jornalístico mudou e como que a heroificação de Bachir os canos das escritas viraram-se contra os americanos “como é que Obama acusa sem provas?”

Os jornalistas seniores estavam revoltados por se ter sujado o nome de Bachir sem prova. Entrincheiraram-se e atacaram sem piedade “o que estes americanos pensam que somos?”

Até posso perceber a indignação Z, mas este caso me trouxe uma coisa assustadora. O nosso jornalismo é feito de reproduções de discursos. “Bachir é barão de droga!” todos correram e fizeram manchetes. As TV’s dedicaram 15 a 30 minutos ao tema, com reportagens feitas com “diz-se que”, “segundo o especialista...” O tempo e as páginas foram assim preenchidos para a satisfação de todos.

Depois veio “EUA não tem provas” para o bem do país.

Não se fez uma corrida em contra mão que eu acho que deve ser o jornalismo. Mais do que aparecerem darem suas caras de estrelas do nosso jornalismo e dizerem “EUA não tem provas” era importante ajudar a compreender este caso de uma maneira fria que se exige ao jornalismo e jornalista.

Acho que não é papel de jornalismo/jornalista defender ou acusar. A obrigação é informar, é colher dados e ajudar a compreender os fenómenos. É preciso questionar porquê EUA meteu Bachir nessa lista e porquê aparece agora a não fornecer dados concretos. E isto não se olha simplesmente em linha jurídica como muitos querem nos fazer compreender. Penso eu Z que este caso deve ser visto na esfera jurídica, diplomática e económica.

Mas este é o jornalismo que temos. Um jornalismo de emoções e jornalistas advogados.

Sem mais linda, receba um abraço cá do indico, com o calor próprio da minha Matola para te ajudar a aquecer nesse reino que se quer unido.
PC