terça-feira, 21 de julho de 2009

Direitos Humanos, Imprensa e Industria farmacêutica

Repensando HIV

A AIDS é muito mais que uma doença.

É um símbolo alternativo incessante

de repressão governamental,

um distintivo da desesperança e da desgraça;

um símbolo da tragédia da liberação;

uma indicação de que Deus não existe,

ou um símbolo de que Deus é cheio de ódio.

In Mentiras, Falsas Maldições & AIDS de Brian Doherty

Matola, 21 de Julho de 2009


Para Custódio Duma

Meu apóstolo dos direitos humanos

Meu mano Duma, na semana passada revisitei meu novo filme preferido, o documentário 20 Milhões por Detrás Dos Números. É, mano, o que mais me fascina nesse documentário feito por uma equipa de jovens moçambicanos da Rádio Transmundial/Capital, é que tudo relacionado com o HIV/SIDA é transformado em números.

E são números que contam mano. E são eles que deixam claro que desde a peste negra que o mundo não enfrentava uma grande catástrofe como a provocada pelo HIV/SIDA.

Te dizer simplesmente isto Duma seria simplesmente me posicionar no muro do lugar comum e repetir que, 9 anos depois, se concretiza a profecia do “ano 2000 é o fim do mundo.”

É verdade que HIV/SIDA já não é um problema dos outros como antes que não conhecíamos ninguém e hoje muitos olham ao espelho para verem um seropositivo. Então onde é que estamos a falhar?

Para mim Duma falhamos desde o princípio. Falhamos na identificação, falhamos nas campanhas, falhamos na abordagem e falhamos na catalogação da doença.

O que quero dizer Duma é que na questão de HIV nos apegamos sempre em uma única linha de orientação e ignoramos outras tantas, fazendo delas o nosso cavalo de batalha. Como é que são tratados os dissidentes das versões oficiais sobre HIV/SIDA como Thabo Mbeki?

Seria especular demais fazer uma ligação directa do desgaste político de Thabo e o seu cepticismo em relação a posição universal sobre o HIV/SIDA.

Para Benki não há uma ligação directa entre o vírus HIV e a SIDA. Esta insinuação punha em causa toda uma estrutura montada pelas grandes potências para o combate ao HIV.

O mais importante Duma é veres até que ponto os democratas despiram as máscaras e silenciaram violentamente Mbeki. A opinião dele foi completamente censurada dos grandes órgãos.

Segundo Gevisser quando perguntou qual foi a maior mágoa de Mbeki enquanto chefe de Estado, ele respondeu ter sido quando foi “persuadido em 2002 por membros do governo e do seu próprio partido a não expressar abertamente os seus pontos de vista sobre o HIV/SIDA.”

Não é minha intenção, mano, discutir contigo a questão de liberdade de opinião, de expressão ou de tantas outras coisas que, oficialmente, são nossas liberdades.

Olha que o que Mbeki defendeu durante o seu mandato não era nada de novo. Embora a imprensa, principalmente a ocidental tenha aparecido com grandes destaques a apontar para aquela posição como exclusiva do presidente sul-africano e a sua ministra de saúde, a negação do que chamam de posição “científica” já vem sendo feita quando a ANC não passava de um movimento rebelde.

Robert Root-Bernstein em Rethinking AIDS procurou mostrar o desmoronamento das abordagens científicas e de saúde pública americana. Mas na lista dos dissidentes podemos destacar o Biólogo Molecular Peter Duesberg, que em Março de 1987, na revista científica Câncer Research, se deu ao luxo de desafiar a afirmação “cientifica” de que o HIV causa a SIDA. Para o castigar, o Instituto Nacional de Saúde o notificou para que ficasse a saber que em Outubro de 1990 o seu “Outstanding Investigator Grant” (título importante dado a cientistas também importantes), não seria mais renovado depois de 1993. Neste grupo também podemos encontrar nomes como Charles A. Thomas, um Professor Bioquímico de Harvard, que pertence ao grupo de retrovirologistas, epidimiologistas e imunologistas que questionam o dogma do HIV.

No entanto meu irmão, como Thabo Mbeki, estes grupos todos se esquecem que há uma grande indústria farmacêutica por detrás da questão de HIV/SIDA e qualquer questionamento a posições oficiais pode pôr em causa toda uma indústria que nos anos 1970/80 estava em crise e que HIV veio salvar.

Podemos recorrer a uma ideia simples para procurarmos compreender a posição política por detrás de toda esta máquina mortífera de fazer dinheiro que é a SIDA.

Quando a poderosa América quase que se vergava sob o peso de uma doença que matava gente de entre os 20 e 40 anos, no dia 23 de Abril de 1984, Magaret Heckler, Secretária de Saúde e Serviços Humanos do Governo de Ronald Reagan, como escreve Brian Doherty “orgulhosamente anunciou que o médico americano, Dr. Robert Gallo, tinha descoberto o vírus que causava a SIDA: um retrovírus, supostamente isolado e tido como o causador de Imunodeficiência Humana.”

No entanto não demorou o aparecimento de provas indicando que o vírus havia sido descoberto antes em Paris por Luc Montagnier que o mandou a Gallo para comparar com o vírus que dizia ter descoberto.

Para evitar um escândalo, já que o governo americano correu para dispensar biliões de dólares na tese de Gallo de que o HIV era o única causador de SIDA, a saída foi se assumir uma co-autoria sem antes se confirmar essa ligação directa que gente como Mbeki procura negar ou reivindicar outras pistas.

O triste papel de parvo que Mbeki e outros tantos dissidentes desempenharam foi possível por não terem avaliado claramente o impacto dos seus discursos perante a indústria farmacêutica que se apegou na teoria de Gallo para se salvar da catástrofe. Ou talvez Mbeki acreditou que a sua posição de chefe de Estado o tornava imune ao poder das farmacêuticas.

Apoiada na imprensa, a indústria farmacêutica pegou no Mbeki e o esfregou no chão lhe atirando com as culpas de “maior responsável” pelos elevados índices de HIV/SIDA no seu país.

A outra coisa que Mbeki, a sua ministra de saúde, Tshabalala-Msimang, e outros dissidentes se esqueceram, como escreve Brian Doherty, é que “o século XX caracterizou-se por três desenvolvimentos de grande importância política:

O crescimento da democracia; o crescimento do poder corporativo, e o crescimento da propaganda como meio de proteger o poder corporativo da democracia”. Eles ignoraram isto para o caso de saúde.

Mbeki não só ignorou a capacidade das grandes indústrias influenciarem os media como também pegou pesado quando na sua biografia disse que “os cientistas da SIDA são comparáveis aos médicos dos campos de concentração nazis.”

Mas não é só a indústria farmacêutica que encontrou no Sida uma salvação. Muitos outros grupos recorreram a esta pandemia para construírem as suas posições sociais e económicas e o resultado foi o surgimento de senhores ilustres e a propagação do HIV/SIDA.

É importante ver que nos princípios, mano, a questão de HIV/SIDA era da responsabilidade da medicina e da biologia. Foi preciso uma reivindicação dos cientistas sociais para que fosse visto como uma questão saúde pública ou social.

É nesse contexto que entra a indústria de publicidade e outros grupos corporativos. E pergunto até que ponto as organizações dos direitos humanos prestaram atenção a campanha contra sida?

As primeiras campanhas da doença faziam uma ligação directa da morte e HIV/SIDA. “SIDA mata malume”.

Era como se não nos deixassem nenhuma chance e que logo que contraíssemos o vírus a única saída era encomendar um caixão.

A ideia de terror esteve por detrás de campanha de salvação da indústria farmacéutica. Heinrich Kremer procura uma justificação simples para essa ligação:

“É evidente que se não tivéssemos um vírus para temer, as pessoas teriam começado a pensar na catástrofe farmacêutica e isso, poderia ter consequências imprevisíveis.”

Se prestares atenção vais ver meu irmão que as campanhas contra sida foram com o tempo se baseando mais na promoção do preservativo que nas ideias morais de abstinência e fidelidade.

A promoção do preservativo parte do princípio que todos são propensos a sexo e não vale a pena nos esforçarmos para mudar isso, tudo na gasta ideia de modernismo.

Quem quer ser atrasado meu irmão?

Mas nos esquecemos que a promoção de sexo está, até certo ponto, directamente ligado a promoção do preservativo. Começamos a assumir que todos, até crianças de 13 anos são sexualmente activas. No lugar de nos esforçarmos para mudar nos conformamos: “o mundo é assim, não podemos fazer nada”.

Ou como dizia uma freira brasileira “não digo para fazer mas se fizer use camisinha.”

E a crise começa por aí.

A minha amiga Tomásia fez um trabalho de licenciatura sobre as campanhas de combate ao HIV com outdoors. Ela testemunha o choque que muitos tiveram nos distritos em que ela trabalhou por verem jovens casais em poses sensuais “Nós sabemos o que se passa na tua cabeça.”

Segundo Tomásia a mensagem desejada não passava porque os habitantes desses distritos o que viam naquelas campanhas eram simplesmente poses pornográficas que punham em causa o seu modo de vida, desviavam as suas filhas e abalavam toda a educação de anos que pretendiam transmitir para seus filhos.

Esse é o erro de campanhas generalistas que podem servir bem na cidade de Maputo e não servirem nesta minha Matola.

Posso pegar num exemplo que passava nas nossas TVs, de uma menina adolescente que diz a mãe que vai sair com João. No lugar de – como faria dona Paula minha mãe, naquela idade – dizer não “volte tarde”, a mãe dela pergunta “levaste o preservativo?”

Olha Duma, a mãe parte do princípio que a filha ao sair com o João vai cair na primeira cama que encontrarem. Pode ser uma forma de combater a propagação, mas é mais uma forma de vender o preservativo promovendo a prática de sexo, pois os números continuam a elevar-se.

O que seria de preservativo sem relações sexuais?

O risco de “façam mas com preservativo” em detrimento de “adie o sexo para mais tarde” tem seu impacto nos números.

Nós, mano Duma, sabemos. Já ouvimos ou já dissemos que “o preservativo furou-se numa altura que não dava para parar”.

Qual é a altura que não dava para parar?

Se pessoas crescida não “dão para parar” o que acontece com um adolescente de 12/13 anos?

Olha mano, muitas vezes, como escreve Brian Doherty “o senso comum diz: Nunca acharão a cura do câncer por causa do montante de dinheiro envolvido. Não sei se isso é verdade para o câncer, mas é para a SIDA.”

Sendo assim, a questão de SIDA – os doentes, os panfletos, camisetes distribuídas, retrovirais, grupos patrocinados, pessoas atingidas pelas campanhas – não passa de números. Números do que se ganha, números que se perdem, número dos trabalhadores que não trabalham, número dos contaminados, números das pessoas atingidas pelas campanhas, números que reduziram ou aumentaram.

Nesta situação o que se tem feito no combate a sida é pegar-se numa única vertente de cura – que favorece os números; uma única vertente de campanha – que ajuda a contabilizar os números; uma única forma de olhar as vitimas – que são números dos contaminado e que já consomem os AZT.

Não há muita preocupação com o que está por trás dos números e sendo assim não se pode falar dos direitos humanos.

Como podes falar dos direitos humanos dos “sem rostos” ou dos números.

Como podes falar dos direitos humanos de pessoas que foram roubadas o lado humano?

Aquele abraço, irmão.

PC

terça-feira, 7 de julho de 2009

A carta Que Nunca te Quis Escrever

Os ateus fazem a vontade de Deus por não acreditarem nele.

Se Deus quisesse que acreditássemosnele faria com que acreditássemos.

Quem sabe se o próprio Deus não é ateu

Citação reproduzida mentalmente, ouvida na RDP-Africa

no lançamento do livro de Eduardo Agualuza


Para Ilídio Sitoi

Pelas conversas que não teremos - Matola 07 de Julho de 2009

Irmano, nunca te quis escrever esta carta. Aliás, esta é a carta que nunca quis escrever para alguém e que nunca esperei escrever.

Repete-se mentalmente a música de Paulo Flores “sonhei te ver lá em casa a sorrir.” Entro para a redacção onde por várias vezes trocamos ideias e que nem por isso tínhamos, ainda bem, os mesmos pontos de vista, e sei que não te posso ver mais cá a sorrires.

É estranho, acredites Ilídio, escrever uma carta para alguém que sei que nunca a irá ler. É estranho estar aqui a tentar recriar momentos de uma curta história de dois jornalistas que o destino os pregou uma partida. Falo de tu e eu.

Tu, porque nunca mais irás escrever enquanto o desejavas tanto. Eu porque terei de continuar escrever mas sem a mesma ilusão que tu tinhas. Acho que é isso que me fará falta companheiro: a tua ilusão.

Estavas ainda na idade de ilusões. Acreditavas, como eu, que o jornalismo era capaz de mudar o mundo. Mas qual jornalismo? Nós os dois sabíamos que não era este o jornalismo que queríamos fazer. Nós os dois sabíamos que o nosso jornalismo podia ainda ser melhor. Sabíamos que podíamos fazer melhor. Era essa a ilusão que te acompanhava, acreditar num jornalismo livre de interesses que se baseava somente na verdade.

Te perguntei um dia o que era a verdade. Me vieste com uma série de filosofia que não compreendi e esperava que um dia voltássemos a falar da tua ideia da verdade. Mas hoje sei que não falaremos mais.

Há muita coisa que não falaremos mais meu irmão.

É estranho estar aqui a escrever uma carta para alguém que nunca a irá ler.

Eu sei o que dirias, companheiro. Sei que irias aproximar a tua cara para a minha e perguntar atrevidamente: “ouve lá, por que é que escreve?”

Não te daria a resposta porque para ti as coisas tinham de ser claras como a vez que perguntaste ao nosso fotografo Rogério porquê algumas das fotos que tu fizeste estavam boas e outras tantas más.

“Foi por sorte”, respondeu ele com sua única simpatia.

“Não me fale de sorte, ou sei ou não sei tirar fotografia.” Respondeste.

Nunca te perguntei se acreditavas em sorte. Não havia pressa. Ou pelo menos eu assim achava. Nos sentaríamos num bar qualquer, pediríamos uma boa cerveja e discutiríamos sobre a sorte. Tu acreditavas em sorte?

Nunca me irás responder

É da religião que mais te queria falar nesta carta. Ou melhor, já tínhamos discutido sobre a tua desilusão em relação a igreja e me desta a ideia de escrever uma carta sobre o assunto.

Uma vez na redacção me falaste que não sentes mais na igreja a mesma apaixonante promessa de “céu” e “paraíso” que te cativava na infância.

Me interessou essa tua observação, primeiro por seres de uma família religiosa criado com base na bíblia, em nome do Pai e nos mais nobres princípios religiosos. Para ti Ilídio, “a igreja tinha mudado.”

Mesmo com esse ponto de vista não deixavas de ir a igreja. Eu sempre que te ligava e me dizias que estava na igreja perguntava como é que conseguimos ir para um lugar onde não mais nos apaixonava?

Para ti era fácil atribuir essa sua frequência a igreja a mesma ilusão dos dias melhores que tinhas pelo jornalismo.

Mas para mim não era a igreja que havia mudado, mas sim tu. A igreja se guia pelos dogmas e as mudanças que ocorrem nela não são revolucionárias. Acho que é a instituição com mais resistência às mudanças. Elas camaleões e resistem o máximo que podem e não podiam, em 22 anos de vida que tu tinhas terem ocorrido várias mudanças na igreja.

O que tem acontecido é a mudança das pessoas que assumem os destinos da igreja. Te disse isso mano. Muitas das pessoas que assumem os destinos da igreja o fazem por interesses próprios e outros chegam-se assumir como senhores absolutos das mesmas.

O papa João Paulo I, que teve o papado mais curto da história do Vaticano, apenas 33 dias, defendia uma igreja pobre ao serviço dos pobres.

Já imaginaste mano, a riqueza toda que a Igreja Católica construiu com base em negócios feito com base na ambição reservada aos meros mortais, para se acabar pela vontade de um só homem de origens pobres que nunca sonhou ser papa? Estava escrito que Albino Luciano, ou Papa João Paulo I não sobreviveria.

Estava a dizer, irmano que não foi a igreja que mudou mas sim as pessoas que assumiram os destinos da igreja. Ela ainda usa os mesmos livros, ainda nos dão o céu em troca de fazermos o moralmente correcto, ainda nos garante o amor de Deus pai todo o poderoso, repete-nos o sacrifício do seu filho Jesus Cristo crucificado pelos nossos pecados e nos garantem o baptismo como caminho para a nossa purificação.

Também, tu podes ter mudado, e não a igreja. Pelos livros que leste, pelos lugares que foste, pelas pessoas com quem conversaste e pelos amores que tiveste. Tu podes ter mudado e a igreja não acompanhou os seus anseios. Mas isso é o que estava a dizer. A Igreja em si, é uma instituição estática.

Gostava de voltar a discutir isto contigo mano, mas sei que nunca mais irei o fazer.

Sei também que o sonho de quando fores mais velho te refugiares na tua quinta o mais longe possível da cidade para fazeres análises desta pátria amada, nunca mais se irá concretizar.

Mas fico aqui a me perguntar o que irias escrever. Que ideias tinhas sobre este país?

Nunca mais companheiro

Esta é a carta que nunca te quis escrever.

Agora tenho de parar...

... está na hora do... teu funeral.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Mingas e o Rítmo Ignorado

“Tigre não precisa dizer que é tigre

para que as pessoas saibam que é tigre.”

Comentário feito por meu velho amigo

Euclides Gonçalves numa

das tantas conversas

que tivemos na UEM


Matola, aos 17 de Junho de 2009

Amigo Amosse Macamo.

Meu companheiro,

Desta Matola das minhas paixões, te escrevo esta carta para te falar da música, aliás das escolhas musicais.

Estava na correria do fecho do jornal onde trabalho. Sabes Amosse, para mim o momento do fecho cria um sentimento duplo, uma espécie de amor e ódio entre o stress e a esperança do tempo passar e depois, na hora do balanço, sorrirmos por tudo ter dado certo. É uma coisa estranha, pelo menos para mim. Ainda não sei se gosto ou não desse momento. Também nunca me questionei de verdade. Mas essa é uma outra história, mano.

Estava nesse ambiente quando a minha colega Arsénia Sithoye me entregou um fax com a lista dos nomeados para Mozambique Music Award, MMA. Ela depois fez um comentário, acho que no fundo é uma provocação já que ela, como tantos outros amigos meus, conhece as minhas quedas musicais. Dizia que Arsénia me entregou fax comentando que faltava ali o nome da Mingas Jamisse.

Juro Amosse, que não me surpreendi. Penso que embora esperasse ver na lista o nome daquela que é para mim uma das maiores artistas, não digo cantora porque estou a falar de arte, desta minha pátria amada, as nomeações assim como as vitórias já não me surpreendem.

Não falo aqui da justiça porque me refiro a uma competição que depende mais de juízos de valor, sentimentos e afinidades. Quando é assim não acho justo falar-se de… justiça. Para mim, a única competição justa é o atletismo em que a condição é fugires o mais distante possível do adversário.

Também, Amosse, não conhecia os critérios das nomeações para além de se dizer que “se pretende reconhecer as melhores produções de 2008.” Eu confesso que não sei até onde podemos falar das melhores produções de 2008. Não sei se se referem as músicas que apareceram em destaque nesse ano ou que foram feitas nesse ano, porque temos esses dois itens nas nomeações.

Nos finais de ano passado fui ver um espectáculo 5 estrelas de Mart´nalia, a filha de Martinho da Vila. No dia seguinte escrevi para Ouri Pota que há músicos moçambicanos que já não deviam abrir espectáculo de nenhum outro grande músico estrangeiro porque são simplesmente bons.

Eu não conhecia Mart’nalia mas gostei da música dela que ainda hoje o seu disco Madrugada, é dos meus preferidos. É como se quizesse golozelar o tempo para recuperar o que se foi a ter ouvido. É uma espécie de desconcentração permanente que nos faz viajar entre momentos da ausência. Compreendes Amosse? – Nem eu compreendo, mas é assim mesmo que consigo caracterizar a forma como foi construído Madrugada.

Olha que mesmo com esta leveza toda que se pode também transferir para o seu espectáculo, pelo menos o que teve lugar aqui em Maputo, ainda acho que uma artista como Mingas não devia abrir espectáculo de Mart’Nália. Falo só em termos artísticos e não de outros itens ou necessidades que se me podem atirar na cara que tem feito de nossas estrelas meros aperitivos.

Para mim ela, como artista tem que ser figura de cartaz e naquele espectáculo ela mostrou isso, foi como se o espectáculo tivesse começado do fim. Penso que esteve por 30 minutos em palco. Até pode ter sido mais que isso mas a forma dela de se apresentar me fez perder a noção do tempo. Era como se um minuto tivesse menos que 60 segundos. Um daqueles shows que se justifica a canção popular dos eventos familiares e religiosos: komane a dambu dzinga peli, que livremente pode ser algo como “não deixem que anoiteça” porque queremos que a felicidade não acabe.

Voltamos aqui às produções. Nesse espectáculo Mingas trouxe um tema novo que apesar de ter a sua verdadeira marca mostra o quanto ela não sabe parar no tempo.

A escolha dos nomeados para MMA, segundo o comunicado que recebi foi feita por um júri composto por “músicos, jornalistas culturais e apreciadores de música.”

Fazendo fé a Ras Rony, um dos músicos nomeados, houve mais “inscrição” do que “nomeação”. Diz ele que a informação circulou mais entre amigos e “eu me inscrevi para o concurso na última hora porque a informação chegou-me tarde.”

E outra coisa que eu acho engraçado é a mistura meu companheiro. No Jazz Festival levantou-se o debate sobre a presença de Lizha James e Stewart Sukuma. Ras Tony também questiona a presença de Azagaia na categoria de Reggae.

Olha Amosse, ainda achas que estas coisas devem me surpreender? No Jazz festival tínhamos muitos moçambicanos de Jazz como é que agora surge simplesmente um nome a concorrer para essa categoria? Será que o júri achou que todos os outros não têm qualidade ou só Dino Miranda é que conseguiu se inscrever a tempo?

Gosto deste tipo de parada de sucesso. Antes usava meu tempo para, apaixonadamente acompanhar concursos deste tipo porque pensava que tivessem algo mesmo de arte. Venciam as verdadeiras estrelas, algumas até com as quais nós não concordávamos mas que reconhecia-se nelas um verdadeiro valor.

Agora, quando me aparece alguém a dizer que ganhou um prémio de melhor vídeo dou-lhe parabéns pelo valor que entra no seu cofre não exactamente pelo seu lado artístico. Uma cantora, que não conheço o nome, apareceu num dos espaços de promoção do MMA a dizer “agora vamos ter que trabalhar porque já temos um concurso de verdade. Chega de fazer uma música boa e outras tantas para encher o álbum.”

Que verdade!

Te escrevia para falar desta minha incapacidade de me surpreender com o que acontece na música, principalmente nos concursos que me parecem mais “plástica” do que uma verdadeira arte.

Estamos na era do “show” e não da arte. Sendo assim meu companheiro, não me posso dar ao luxo de me surpreender.

Aquele abraço

PC

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Teoria de Culpabilizar os Outros


Para Ivone Soares 
E todos, independentemente da filiação partidária,
que se batem por um Moçambique melhor

“Não existem princípios; apenas factos.

Não existe o bem e o mal, apenas circunstâncias.

O homem superior apoia factos e circunstâncias

a fim de guia-lo.

Se houvesse princípios e leis fixas, as nações

não as mudariam como mudamos de camisa,

e não se pode esperar de um homem que seja

mais sábio do que uma nação inteira.”

Honoré de Balzac 1799-1850

Querida Ivone,

Nos últimos tempos tenho estado a pensar nos contornos da política moçambicana. Esta pátria nossa. É interessante ver que a “culpabilização alheia” se tornou, desde há muito na principal arma de muitos dos  nossos políticos.

Uns recorrem a ela quando estão sem alternativa enquanto, para outros, ela funciona como o plano “A”.

Depois do primeiro adiamento do congresso do seu partido, esse marcado para Nampula e que não aconteceu – acredite que não sei porquê – a primeira desculpa encontrada foi espreitar o quintal do vizinho. 

Não quero, acredite, desvalorizar os dados avançados pelo vosso partido. Também não é objectivo desta carta. Mas não posso negar que a desculpa da sabotagem frelimista, para além de confirmar nos camaradas o estatuto de uma grande e perfeita organização, e, neste caso, qual máquina infalível, faz com que avancemos para uma forma descansada de não procurar as nossas próprias fraquezas. Algo como: se eles são mais forte é para fazermos o quê? 

- Assim, todo o mundo dorme descansado. 

A teoria da culpabilização alheia não foi introduzida na nossa política pela Renamo. Num contexto diferente, é verdade, ela fez parte da nossa construção como Estado/Nação e, de certa forma, serviu para esconder as nossas fraquezas. 

Discuti, há dias, sobre isto com Venâncio Mondlane para um artigo que seria publicado no jornal onde trabalho. Para ele “a culpabilização alheia” embora sendo uma característica da economia, tem encontrado um campo privilegiado na política. 

Não conheço bem o campo económico, Ivone. É provável que, tirando aquela ideia simplista que diz que os homens são animais políticos, esta também, não seja a minha praia. 

Mas há uma coisa que não podemos negar, a teoria de culpabilização que muitos dos nossos políticos têm se esforçado em usar, tem por objectivo tornar nos inocentes dos nossos próprios actos e omissões. 

Depois da independência nacional, muitos dos nossos fracassos económicos, até mesmo sociais, tiveram rótulos como “Rodésia, apartheid, guerra-fria e herança decadente do colonialismo.” Olha que não estou a inocentar este quarteto, pelo contrário, acredito que este quarteto teve a sua parte de culpa para a nossa fraqueza. O que estou a dizer é que nós, como país, temos ou tínhamos de olhar para dentro e perguntarmos “o que estamos a fazer?” 

Olha Ivone que é mais cómodo descansar na ideia da responsabilidade dos outros. Mas Moçambique como país não se podia dar a esse luxo. Então era preciso questionar certas opções tomadas pelos libertadores: “Que vantagens temos seguindo marxismo-leninismo?”. Uso por exemplo esta linha que seguimos e que é até hoje usada pelo seu partido para justificar o seu surgimento e as acções tomadas ao longo de 16 anos de guerra. 

Era na verdade necessário questionar se dentro das nossas estruturas fizemos as opções certas. Esse questionamento tem que ser feito até agora se, como país quisermos avançar. Podemos alargar mais o leque das teorias da culpabilização alheia para o continente. O maior debate que existe agora é: o que o Ocidente está a fazer por nós? 

Acha mesmo Ivone que essa é a melhor pergunta a fazer? Acha que é importante colocar Ocidente como o principal actor do nosso desenvolvimento? 

O ex-primeiro ministro de Moçambique, Dr. Mário Machungo tocou neste assunto no III Seminário Internacional RDP-África. Mesmo reconhecendo que o passado foi errado,  falando da crise financeira que tem o seu impacto nos países em desenvolvimento, é da opinião que a Europa não era a única responsável pela desgraça africana. 

Olha que este é um ponto de partida. É o reconhecimento das nossas próprias fraquezas e um apelo para a mudança. Esta, me parece, também tem sido a tónica do Presidente da República Armando Guebuza que nos tem incentivado a lutar, a trabalhar, a contar com as nossas forças para vencermos. 

Deixe-me voltar novamente para a nossa Pátria Amada. O que nos aconteceu a partir dos anos de 1980? A questão de caju Ivone é um exemplo claro de uma intervenção de fora. Aliás, o Dr. Machungo estava ainda no Governo quando o Banco Mundial disse que a política de caju estava errada e, como ele mesmo reconhece “isso arruinou a indústria de caju que se estava a desenvolver no país.” 

Então o que é que acha que se devia fazer nessa altura? A melhor resposta não é dizer simplesmente que se está tudo errado a culpa é deles e cruzar as mãos. 

O que se exige de nós é que paremos simplesmente de nos queixar e encontremos soluções internas. Se prestar atenção aos discursos de diferentes líderes africanos, incluindo o nosso, descobrirás esse apelo a mudança. Claro que pode me dizer que não passam de palavras. Ok, mas já são palavras de – esta sabes que não é original – we can. Podes ver o que disse o Dr. Machungo nesse encontro que me referia: “Cabe à inteligência africana a responsabilidade de tomar o seu futuro. Se não fizerem isso não será do estrangeiro que virá.” 

Agora voltando ao seu partido. 

A teoria de culpabilização alheia é, na verdade uma forma interessante de sacudirmos a pressão de nós e encontrarmos culpados noutro lado. Alguns defendem que a política tem que ser limpa (?!). Assim, se os outros, neste caso a Frelimo aparecer a fazer jogo sujo para não realização do congresso da Renamo, é lógico que perde a cotação por parte dos que têm essa ilusão. 

Contudo, o uso da mesma desculpa para eventos diferentes faz com que ela se desgaste, principalmente numa sociedade como a nossa que o eleitorado já não vota ente a guerra e a paz. Este é um ponto que parece que muitos políticos ainda não se aperceberam. Venâncio Mondlane é da opinião que o eleitorado está cada vez mais inteligente e alguns políticos estão a andar no sentido contrário. 

O perder as eleições e justificar-se pela fraude da Frelimo vai mais soar a disco raspado. O não realizar um congresso porque a Frelimo sabotou soa mais a comodismo. Ver quadros seniores a abandonar o partido na mesma pressão das mangueiras dos bombeiros e dizer que estão a ser aliciados por outros partidos é a forma mais fácil de ignorar a “trave no seu próprio olho.” 

Querida Ivone, é esquisito que apesar de quase nunca termos trocado ideias, para além de um simpático “olá bom dia” acompanhado de um sorriso de ambos os lados, esta ter sido a minha primeira forma de te colocar algumas questões para reflectirmos juntos. 

O mais importante é discutir a melhor maneira de vencermos os fantasmas que nós mesmo criamos. 

Tudo por esta pátria amada


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Quando Crescer Quero Ser Bandido

"Matar e agir com violência fazem parte
da imagem do bandido social.
O terror faz parte de sua imagem pública.
São heróis, não a despeito do medo
e horror que inspiram suas acções,
mas por causa deles.
Não são vistos como agentes da justiça,
e sim como homens que provam
que até mesmo os fracos e pobres podem ser terríveis."
Trecho de “Bandidos” de E. J. Hobsbawm, citado
em “Comando Vermelho: história secreta do crime
organizado” de Carlos Amorim
Para Nhykiwa Pedro
Matola, aos 3 de Junho de 09
Querida Nyikiwa,
Esperava que a primeira carta que te escrevesse fosse mais lírica. Queria te falar de poesia que gostas e da prosa que eu amo depois de ter visto alguns textos teus.

Mas tudo isso mudou minha querida, embora não perca a esperança de fazer uma viagem por aquilo que Fernando Pessoa chamou de “prosa ao verso” e espreitar a liberdade que este género nos oferece em alternativa da “prisão” que é a poesia.

Escrevo para te falar de sonhos. Neste caso “um estranho” sonho.

Numa segunda-feira, fiquei enfrente a TV para ver “Repórter Record” na Mira-Mar. Tenho uma paixão pela reportagem, acho que é o maior género jornalístico embora haja quem olhe mais para a notícia. Aqui voltaria, Nyikiwa, a mesma ideia de prosa e poesia. Assim a notícia se apresenta, quanto a mim, como a poesia, isto é, “prisão” das regras, e reportagem como prosa, o mesmo que liberdade. Talvez um dia te fale disto.

A reportagem de que te escrevo era sobre a criminalidade. O cenário era as favelas brasileiras e toda a sua violência. Num desses momentos perguntaram a algumas crianças sobre o que queriam ser e, invariavelmente, todas queriam ser bandidas.

Seria esse um estranho desejo se nos esquecêssemos que todos nós aprendemos de exemplos e temos uma tendência a nos deixarmos influenciar.

Aquelas crianças vivem no meio da violência onde, segundo várias notícias, o Estado só se faz lá sentir através do exército ou polícia que sobe para combater os soldados do tráfico.

O verdadeiro Estado podes ver “Comando vermelho: história secreta de crime organizado” escrito pelo jornalista Carlos Amorim. Dizia que o verdadeiro Estado nas favelas é o crime organizado que impõe a sua lei e decide quem deve morrer e quem deve viver. Esses homens fazem uma demonstração clara de dinheiro, mulher e poder que fascina a criançada.

Também senti essa sensação nas salas da escola primária de T-3 quando me vi obrigado a mudar de sonho de ser polícia para correr atrás da vontade de ser militar.

“Entre polícia e militar quem bate a quem?” perguntavam os meus amigos na inocência dos seus 8 anos.

Estávamos a viver os momentos da guerra civil. Me fascinava o uniforme caqui da nossa polícia com o colt de pistola na cintura. Eles tinham pose de protectores oponentes. Eram, para mim o rosto forte do Estado. Eram os mais forte, pelo menos na minha inocência.

Era bom ser polícia. Eu queria ser polícia!

Mas para muitos da minha turma o militar é que detinha o poder. Ele batia o polícia!

Na minha rua, numa casa onde vendiam “mal-coado”, uma tradicional cerveja de farelo que se fermentava nos potes e “tontonto”, aguardente que o humorista Sérgio Zimba apelidou de whisky tradicional… escrevia que na minha rua, os militares bem uniformizados passeavam ali o seu charme e poder.

Trocavam ali as suas rações de combate por canecas de mal-coado. Exibiam mulheres a todo o momento. Andavam em potentes carros “Matchedje” de “10 anos de luta” e os carros tinham de se afastar da frente. Eram os donos da estrada.

Eles eram também temidos pela falta de medo – pelo menos era a imagem que eu tinha – e pela violência gratuita que por vezes era interpretada como um “não me abusem.” Penso que te lembras das canções que apelavam às mulheres para “não amar militares”.

O que nós gostávamos nos militares era essa demonstração de poder representada pela força física.

Ainda na minha rua, todos nós, putos, nos reuníamos a volta de um jovem militar quando aparecesse. Ele contava histórias fantásticas do exército nacional contra os rebeldes da Renamo. Era fascinante ouvir a bravura de um militar.

Eu não podia mais querer ser polícia. Queria ser militar.

Penso que percebes a ideia de poder que fascina essas crianças. Não falo só das favelas brasileiras. O mesmo acontece no nosso país.

A justificação que estas crianças dão para serem bandidas, pelo menos na reportagem, é mais humanitária, se é que se pode ver o lado humanitário no crime. “Quero ser bandido para ter dinheiro e ajudar minha família.”

Mas diferentes relatórios mostram que o que está por detrás do sonho de ser bandido é o poder!

A ideia de dominar o outro, ser venerado e temido nos faz correr atrás desse estranho desejo. Se prestares atenção verás que muitas das crianças do meu país se fascinam com filmes de violência e geralmente escolhem o bandido.

O meu sobrinho, quando brincasse com os seus amigos depois de ver a telenovela “Prova de Amor”, só queria ser Lopo Júnior ou o “chefe da cúpula” ignorando por completo os abnegados jovens polícias que tudo faziam para manter a ordem.

A lição de que o bandido sempre perde, sofre ou morre no final, parece não apelar para o lado delas. Ter poder, dominar a polícia, brincar com as instituições do Estado, pôr em causa a dignidade delas tem mais força apelativa que qualquer lição de moral.

Facilmente Agostinho Chauque, com todo o mediatismo que se dá nos órgãos de comunicação, soando mais a elogios a sua capacidade de dribilar a polícia, capta mais admiradores adolescentes que o impacto que possa ter a morte dos seus companheiros. Tem mais bravura que um exército de polícia que abate um criminoso. E quanto mais tempo durar uma operação para neutralizar um bandido que troca tiros com a polícia, maior é a sua chance de ser herói e conquistar novos adeptos.

O que queria te dizer Nyikiwa é que os desejos, os sonhos e admiração que os bandidos causam nos jovens das favelas brasileiras também podem ser encontrados no “país de marrabenta.” Afinal aprendemos de exemplos.

Precisamos de um outro apelo que não seja o chavão “bandido sempre sofre” pois esse parece já não funcionar.

Precisamos de novos exemplos e uma estrutura social funcional.


PC

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cristianização de Eduardo Mondlane

Matola, aos 29 de Maio de 2009
"Existe uma chave para a liberdade:
Pense!
Se quiseres ser um cordeiro, seja feita a tua vontade.
Não reclames, entretanto, quando fores servido em nosso grande Sabbath!"
Um velho dito pagão, do século XX
Querido amigo Egídio Vaz
Depois da conversa daquela tarde de sábado no encontro dos jovens pensadores na AEMO, não parei de pensar no papel dos heróis. Partia exactamente do papel da história, para uma sociedade como nossa, e o impacto que a figura de herói pode ter para a nossa auto-estima.

Podíamos debater sobre isso na tua qualidade de historiador que adora desafios sociais. Mas fui me perdendo na criação dos heróis e a preocupação que se tem nos últimos dias para a sua reinvenção.

Depois da independência, como se não bastasse a bravura dos guerreiros para se hastear a nossa bandeira como um Estado soberano, era preciso inventar nossos próprios “símbolos tradicionais.” E os heróis, principalmente das independências dos nossos estados africanos carregam essa áurea mística sobre humana.

A criação dos nossos maiores heróis, Eduardo Mondlane e Ngungunhane, não escapou a esse revestimento para que nos oferecessem como homens puros e dignos como mortais.

No entanto, a construção deles é feita em linhas diferentes também pela forma como viveram.

Se para Eduardo Mondlane há uma unanimidade, o mesmo não se pode dizer de Ngungunhane, visto por uns como símbolo da resistência nacional e por outros como um invasor e ladrão de mulheres.

Tenho dificuldades em imaginar se realmente os chopes podem considerar, na sua plenitude, Ngungunhane como um herói, se a volta da fogueira – se é que ainda existem fogueiras, e supondo que existam - os seus avos os contarem as violentas histórias do exército do império de Gaza no seu próprio território.

A construção de Ngungunhane como herói nacional foi bem mais complexa que a de Eduardo Mondlane. Primeiro teve que se fazer uma purificação do homem. Este ritual passava por o transformar de invasor, ou um colonizador de sul e norte de Moçambique a vítima da opressão estrangeira. Aqui deparamos com uma outra dimensão de “estrangeiro” que passa pelo reconhecimento da africana “dinastia de Gaza” como locais e somente os europeus como “estrangeiros”.

Transformando Ngungunhane num dos nossos passa a ser mais fácil a purificação. Ele entra triunfalmente para a nossa história como um símbolo de resistência.

Mas a transformação de opressor a herói não pode surpreender se estivermos a falar de um país que tem o mérito de celebrar com todo o fervor as suas derrotas como fazemos com Gwaza Mutine.

Com Eduardo Mondlane acontece o contrário. Como o definiu a professora Tereza Cruz e Silva numa entrevista que me concedeu para falarmos de heróis, Eduardo Mondlane “é uma pessoa admirável, um jovem que embora sendo de uma família real é pobre e modesto. Mas a coisa que mais me marcou era a vontade firme de saber querer mais, aprender, pensar e avançar.”

Para mim, sinceramente, apesar de toda a ornamentação que se coloca em volta a Eduardo Mondlane, penso, como também disse Cruz e Silva, que ele não precisa. Ele tem uma espécie de estatuto natural.

Mas é importante ver como se constrói este herói que lembra algo de Messias. Primeiro há uma espécie de profetização, não quero discutir se é mito ou não. Mas há uma espécie de anúncio do seu aparecimento que se assemelha ao que o profeta Natan revela ao rei Davi: “O Senhor fará surgir de ti uma descendência. Quando chegar o fim dos teus dias, manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. Serei para ele um pai, e ele será para Mim um filho.”

Quanto a Mondlane, as narrativas tradicionais também colocam o discurso na boca – curiosamente – de Ngungunhane na hora de partida para os Açores: “Mas o rei um dia há-de vir e sairá de Mandlakazi”.

Não foi exactamente um “rei” mas alguns historiadores não têm dúvidas que Ngungunhane se referia a Eduardo Mondlane.

Nascido numa família nobre – filho de chefe –, no lugar de lutar pelo seu trono arrasado, curiosamente, pelo exército do império de Gaza, Mondlane opta por um percurso de salvação da pátria.

Como Jesus, que descende de Davi, renuncia esse poder pelo bem de um povo e morre para o salvar. Renuncia a boa vida que poderia ter nos arranha-céus de Nova Iorque para salvar a terra e os homens e acaba “crucificado” num livro. Os seus camaradas repetem “o seu sangue não foi em vão.”

Isso me recorda “eis o meu sangue.”

O importante Vaz é notar que estas imagens heróicas desempenharam o seu papel na construção desta Pátria Amada. Numa altura que atravessávamos a guerra civil, numa altura de apelo a unidade nacional, precisávamos desses heróis. Eles desempenharam cabalmente o seu papel.

No entanto meu companheiro, toda a estrutura em que a nossa história pós-colonial foi construída está a ser abalada indicando o fim da “lua-de-mel”. A revolução venceu e, sabemos nós que todas as revoluções quando atingem os seus objectivos morrem.

O princípio do esfriamento da imagem do “herói Eduardo Mondlane” já vem de há um tempo e penso que o Estado moçambicano se apercebeu disso e antecipou-se com a remoção da sua figura da moeda nacional.

Era a ascensão de Samora Machel.

Fazia sentido ir se buscar o primeiro Presidente da República para o oferecer a nova geração que pouco se identificava com temas como a colonização e independência.

Mas, embora se olhe para ele como o símbolo de boa governação, será que oferece a mesma unanimidade que Eduardo Mondlane? É discutível. Basta só ver o que um dos maiores escritores moçambicanos, Ungulane Ba Ka Khosa, diz no livro “Os Habitantes da Memória” de Nelson Saúte: “Samora Machel um nome de que, sinceramente, nunca gostei. Nunca gostei porque, a primeira vez que eu o vi e ouvi, tive medo. (…) notei que era um indivíduo com todas as características para ser um ditador. Se naquele momento, ele me apontasse com o dedo dissesse: “Matem aquele fulano” eu poderia ser um cadáver. (…) A partir daí nunca tive admiração por ele como um indivíduo.”

A ideia de “Samora ditador” é também controversa. Os partidos moçambicanos da oposição assim como alguns académicos procuraram o responsabilizar, assim como ao seu partido pelo descalabro económico do país.

Tornou-se frequente olhar-se para a adopção do socialismo/comunismo como ideia exclusiva da Frelimo de Machel. Sim, surgiu uma espécie de posicionamentos entre a Frelimo de Machel e a de Mondlane, supondo-se que esta última era contra o socialismo, marxismo e leninismo.

Mas é importante olhar para a entrevista que dá a Aquino de Bragança onde assume que o tipo de luta assim como o colonialismo que enfrentava obrigava a uma via socialista. Ele não esconde a sua crença no Marxismo-Leninismo.

No processo de heroificação o socialismo fica como exclusividade de Samora Machel. Há também grupos que dizem não acreditarem que Mondlane enveredaria pela mesma política, que não concordaria com as decisões tomadas depois da independência. Mas isso meu companheiro é simplesmente “se” e nós sabemos que a história não é feita de “ses”.

Ba Ka Khosa, não retira a importância histórica de Samora Machel, mas parece sugerir essa falta de unanimidade de que falava.

O que quero dizer meu caro Vaz é que os heróis devem ser constantemente renovados para se adaptarem aos contextos.

Os heróis devem ser renovados.

A celebração de 2009 como ano Eduardo Mondlane pode ter essa missão mas é importante ver como é que em pleno século XXI, na era da globalização, de mercados comuns, de HIV/SIDA e pobrezas absolutas, se pode aproveitar a imagem de Eduardo Mondlane como catalizador nas várias batalhas que o Estado tem que travar rumo ao tão almejado bem estar.

Aquele abraço.

Policarpo Mapengo

quinta-feira, 7 de maio de 2009

De Conversas Informais a Liberdade de Imprensa

Para Júlio Mutisse
e todos que como eu
ainda acreditam no jornalismo
A vida é tão querida ou a paz tão preciosa
que devem ser compradas à custa da escravidão?
Não permitais, Deus todo-poderoso!
Ignoro o caminho que os outros seguirão,
mas a mim dai-me liberdade ou a morte.
- dos prémios Nobel de Literatura e Pullitzer, John Steinbeck
em O Inverno do Nosso Descontentamento.



Matola, 06 de Maio de 2009

Querido amigo Júlio Mutisse,
Neste mês de trabalhadores te escrevo desta minha Matola para te falar de jornalismo, uma profissão que aprendeste a admirar mesmo não sendo a tua área. Te escrevo porque sei que tu, como muitos amigos meus entre eles Milton Machel e Anselmo Titos ainda acreditam no poder do jornalismo.

Na noite da quinta-feira, um dia antes do primeiro de Maio, o presidente do Município da Matola, Arão Nhancale, convidou jornalistas para uma conversa informal. Olhe meu companheiro, nos últimos tempos, a ideia de “conversa informal” prolifera na nossa praça.

Esse encontro que devia ter servido para, “informalmente”, discutir se com o chefe do executivo da Matola sobre os problemas do município, analisar os aproximadamente 90 dias da sua governação e, até certo ponto, darmos uma assessoria.

Dizia que esse encontro se transformou claramente num campo de afrontas entre os jornalistas, cada um a tomar a sua posição que mais podia se comparar com trincheiras.

A discórdia meu caro Júlio vem, acho eu, do termo “conversa informal”. Para uns, como eu, é exactamente nessas conversas informais que temos de dizer aos nossos líderes o que está mal.

Sabes que apesar de elogiar sou da opinião que as pessoas, principalmente os nossos governantes não devem fazer coisas boas a espera de nossos aplausos pois, para mim, fazer tais coisas boas é dever deles. Mas, quando não fazem, temos sempre de os lembrar que não estão a fazer bem.

Os encontros informais devem ter esse papel. Como disse um dos jornalistas presente nesse encontro, “o presidente não nos chamou aqui por sermos bonitos ou termos olhos azuis.” Eu acrescento que Nhancale não nos chamou para o Mutchipe por sermos amigos dele com quem podemos beber uns copos falando das mulheres elegantes. Acredito que ele não precisa de nós para isso. Aliás, um assessor de políticos brasileiros já disse que “jornalista não é amigo de político” isto porque enquanto um quer informação outro quer fazer passar as suas ideias e a sua imagem de “bom moço.”

No entanto, Júlio, a conversa não avançou porque enquanto uns defendiam o aproveitamento daquele “informal” para mostrar ao presidente que nos três meses de poder pode se fazer muita coisa, outros queriam que aquele fosse um encontro de brothers. Lembro-me que um até perguntou em voz alta “vocês não sabem o que é um encontro informal?”. Naquele encontro tive a certeza que não sei o que é “encontro informal.”

Um colega meu, Serôdio Towo, que como eu não sabe o que é um encontro informal, elevou a sua voz para mostrar que descobriu a pólvora: “afinal este encontro é para comermos e beber?”

Isso é que é informal.

Uma vereadora, já na saída veio ter comigo para reclamar que nós – jornalistas – estragamos tudo porque aquele encontro foi marcado pelo presidente para falar e nós só tínhamos que ouvir.

Isso é que é informal.

Mas, meu companheiro, em condições normais nem devia me surpreender. Para quem esteve também no “encontro informal” do Chefe de Estado, Armando Guebuza com os directores e os editores dos órgãos de informação nacionais isto nem deve surpreender. Ali estava a nata do nosso jornalismo. O Chefe estava a espera de contribuições dos pensadores, dos que fazem a opinião. Mas o que ouviu foram ilustres figuras a sugerirem ao Chefe de Estado a preocupar-se com uma má sinalização numa estrada do Bairro do Jardim; outro começou por dizer que era vizinho do chefão em Magoanine e este devia ver uma rua cheia de areal lá no interior daquele bairro. Um outro, que até é jovem (que geração meu deus?) director de uma rádio com nome das costas do nosso país sugeriu ao chefão que tomasse medidas para que os jovens não consumissem aguardentes como Cabeça de Velho ou outros tontontos que se vendem nas zonas centro e norte do país porque isso leva a decadência juvenil.

Não digo que estes assuntos não sejam importantes mas… vaka hina!

Estes dois encontros informais Júlio, nos levam ao debate de liberdade de imprensa, de expressão e de tantas outras por aí.

É neste tipo de encontro onde podemos também influenciar como quarto poder.

Antes de exigirmos que nos dêem liberdade nós temos de saber fazer uso da mínima liberdade que temos. Quando formos a discutir a questão das liberdades temos de ter em contas aquela que nós temos pela simples condição de sermos homens e aquela que devemos ter por pertencermos a uma sociedade. Depis de termos noção disso temos de ver se sabemos fazer uso delas.

Muitas das vezes nós reclamamos a falta de liberdade quando somos os primeiros a sufocar as nossas próprias liberdades e por vezes sem necessidade. Por vezes sufocamos a liberdade quando estamos num palco onde podemos aproveitar com classe os nossos “15 segundos de fama.”

Um dia depois do encontro com Nhancale, um relatório internacional publicado nos jornais portugueses “Diário de Notícias” e “Público” indicava que “apenas 17% de população se beneficia de uma imprensa livre.” Tomando o exemplo da Itália que é um dos países de jornais em abundância, pode se dizer que há uma imprensa livre quando a maioria desses órgãos estão nas mãos Sílvio Berluscone, por sinal Primeiro Ministro? Mas disto Milton Machel já falou quando levantou a questão de aparecimento de muitos jornais.

O que quero dizer Júlio é que antes de exigirmos algo dos outros temos de saber valorizar o que temos. Naquele encontro voltei a questionar se ainda podemos dizer que o jornalismo é o quarto poder em Moçambique e se alguma vez foi.

Infelizmente agora não me parece. Agora me parece mais um quarto onde o poder descalça as botas para alguém engraxar.

Meu companheiro tenho de parar por aqui porque a carta já vai longa.

Um abraço a todos que acreditam que o jornalismo pode ser um quarto poder.